Amores escaldantes

POR: Kâmia Madeira

Num fim-de-tarde de zapping, deparo-me com um caso noticiado por um programa de extrema popularidade de um dos nossos canais de televisão nacional, não há quem às 18.00 h deixe tudo o que está a fazer para saber sobre as graças e desgraças da população. A história em Benguela narra o infortúnio de uma adolescente, vitima de um ataque com gasolina que a deixou com a cara e tórax com queimaduras de 1,2 e 3 grau. O motivo, um relacionamento extra conjugal, sendo a mandante a esposa do “namorado” da adolescente, que graças à rápida intervenção policial já se encontra detida e irá ser presente à justiça. Na reportagem assistimos a uma jovem em sofrimento, um médico cauteloso e uma mãe inconsolável, que entre lágrimas disse: Também não era preciso fazer isso podíamos conversar… o moço andou a rondar a minha filha fez-lhe perguntas e tornaram-se amigos… Que futuro terá esta adolescente? Quantas cirurgias reconstrutoras serão necessárias? E de que forma ficará psicologicamente? Mas antes de tudo é importante pôr em cima da mesa que tipo de relacionamentos almejamos e criamos? Ao dizer que o senhor em questão abordou a filha sendo ela ainda menor e que desenvolveram uma “amizade” a mãe desta jovem não sabia que o mesmo era comprometido? E como aceitou que a fi lha se envolvesse ? A companheira pensou que a solução dos seus problemas passava por mandar queimar a rival e não cogitou abandonar o marido? Sendo que quem comete uma, mais propensão tem para cometer várias… Que tipo de sociedade é a nossa que validamos a falta de respeito, a agressividade e o comportamento desviante? Em que momento é tão importante prendermo-nos a relações que não nos dignificam para que possamos mostrar aos outros que completamos os requisitos de ter uma família e bem-estar mesmo que seja mentira… Por onde anda a responsabilização deste senhor, que deverá ser igualmente ouvido é que o ser “garanhão” prejudicou a vida de uma jovem, que deveria ter sido protegida e educada para valorizar-se não aceitando este tipo de relacionamentos. Devemos dizer basta e não compactuar, desmitificar crenças antigas mas acima de tudo educar meninos e meninas, para o auto-respeito e para o cuidado com o outro, não a sentimentos e relações que põe em risco a vida, basta de amores escaldantes, que diminuem e prejudicam. Até quando vamos assobiar para o lado e validar a infidelidade porque nos ajuda na despesas da casa? Até quando vamos aceitar que ser primeiro, segundo ou terceiro funge é uma forma de viver em sociedade? Até quando?

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