Governo aposta na recuperação da nova imagem da cidade de Ondjiva

Governo aposta na recuperação da nova imagem da cidade de Ondjiva

Para quem desembarca de avião, a constatação começa logo nas infra-estruturas aeroportuárias modernizadas com os padrões exigidos internacionalmente, apesar de ainda não corresponder às expectativas dos exigentes usuários. O cartão de visita de Ondjiva, a antiga vila Pereira de Eça, não se resume a estas infra-estruturas, sendo que foram construidos, um pouco por toda a cidade, novos edificios, como é o caso da nova sede do Governo da Província, construída no mesmo local onde havia a primeira, destruída pela aviação sul-africana no limiar da década de 1980.

Para “honrar” a antiga sede administrativa, a nova sede é um edifício de cinco andares construído de raiz no centro da cidade, que orgulha não só os habitantes desta circunscrição, mas também os outros angolanos. É um edifício com 33 compartimentos, onde funcionam também os serviços administrativos de algumas direcções provinciais e outras dependências, e possui ainda um parque de estacionamento. Construído num espaço de mil e 286 metros quadrados, segundo apurou OPAÍS, custou aos cofres do Estado 991 milhões 826 mil 786 kwanzas.

Frente a frente à sede do Governo, está também erguida uma outra infra-estrutura, ou seja, a Sé Catedral da Diocese de Ondjiva, inaugurada em Março do ano passado e projectada por uma arquitecta portuguesa. Para a edificação deste maior templo da província, o Governo do Cunene havia disponibilizado mais de 400 milhões de kwanzas, segundo dados avançados pelo governador provincial, Vigílio Tyova, no acto da inauguração. Com a capacidade para acolher 500 fiéis sentados, a mesma foi erguida no âmbito do Programa de Investimentos Públicos(PIP). Mas para uma cidade como a de Ondjiva, a sua “metamorfose” não se consubstancia exclusivamente em ter um novo modelo arquitectónico, mas também outras variantes no âmbito social, económico, cultural e até turístico.

Mudanças paulatinas

Apesar de, nos últimos três anos, a província estar a enfrentar uma seca severa provocada por uma estiagem prolongada com refl exos negativos na vida das populações, sobretudo das comunidades rurais, os habitantes de Ondjiva estão a desafi ar as intempéries deste fenómeno natural. É o que a nossa reportagem constatou nos bairros Naipapalela, Zeca, Castilho, Camunhande, Caxila I, Caxila II e Caxila III, onde a vida não pára, apesar do grito de socorro das populações assoladas pela fome e pela seca. Nestes bairros que formam a pequena cidade de Ondjiva, os seus munícipes, embora enfrentem um mar de dificuldades, a seca não os privou de fazer alternativas para reverter o quadro. É o que diz o cidadão Afonso Ndakandele, comerciante, que contou-nos que a seca e a crise económica, apesar de agudizarem a situação social, trouxeram-lhes outra maneira de fazer a vida.

Uma das opções é a diversifi cação da economia, através da criação de micronegócios para sobrevivência, numa altura em que escasseia o emprego tanto na função pública como no sector privado. Em conversa com este jornal, este jovem, de 41 anos, contounos que a crise que assola o país, e a seca, em particular, que se vive na sua província, mobilizaram os mais experientes a fomentar negócios. “Vivemos numa província onde o emprego é difícil, tirando os ramos da Educação e da Saúde que vão fazendo concursos públicos para admissão de pessoal de vez em quando, outros não o fazem e nós jovens optamos pelo empreendedorismo”, disse. Ndakandele acrescentou que esta é a fórmula encontrada para mitigar o desemprego numa província onde a maior parte da população do meio rural se dedica tradicionalmente à pastorícia, embora novos horizontes se abriram com a instalação de universidades, dando outra visão às pessoas.

Hotelaria e Turismo

Com vastas áreas favoráveis para a actividade turística, este sector parece estar adormecido por causa da seca que fustiga a província, com maior incidência na capital da província. Para quem já visitou várias vezes Ondjiva, os poucos locais turísticos e de lazer, apesar de continuarem a dar o ar da sua graça, estão a funcionar na “mó de baixo”, se comparado com os tempos anteriores, ou seja, antes da crise económico-fi nanceira.

O mesmo acontece no ramo hoteleiro onde actualmente a situação também não é lá tão famosa como nos tempos áureos, em que a procura de quartos era maior, fruto da redução do fl uxo migratório entre a Angola e a Namíbia, através da fronteira da Santa Clara, sede do município de Namacunde.

Numa ronda efectuada pela nossa reportagem, constatouse haver decréscimo em cerca de 40 por cento, em relação aos anos anteriores, ou seja, antes da crise económico-fi nanceira internacional, vigente desde Junho de 2014. Entre turistas nacionais e estrangeiros, segundo declarações de gestora da unidade hoteleira onde nos hospedámos, os últimos são os que mais procuram esses serviços. Reconheceu que uma das causas da fraca procura são os elevados preços praticados nas unidades hoteleiras e similares da província. Os preços variam dos 10 mil kwanzas em diante a diária, nas pequenas unidades, sendo que as de maior referência vão dos 15 aos 25 mil.

Comércio

À semelhança dos sectores de Hotelaria e Turismo, a rede comercial local não tem solução para muitos problemas como no passado, estando actualmente resumida ao retalho, com oeste-africanos a liderar o comércio. Entretanto, a intensidade comercial é mais notória na fronteira de Santa-Clara, aliás, como sempre, é lá onde se pode comprar de tudo um pouco, desde electrodomésticos, roupa, calçado, mobílias a outros artigos.

Educação

Com a abertura da Universidade Mandume ya Ndemufayo, o sector educacional universitário da província do Cunene deixou de depender da vizinha província da Huíla, onde durante anos formou os quadros que servem agora alguns sectores da província. Além de várias escolas do I e II ciclos do ensino secundário, do ensino médio e pré-universitário, a província conta com uma Escola Superior Pedagógica, que ministra vários cursos ligados à educação. Este é o retrato de uma pequena parte da cidade capital da província que se está a reerguer dos escombros, através dos investimentos do Governo local e central.

História da cidade de Ondjiva

Ondjiva, é a sede do município de Cuanhama e capital da província do Cunene. No período colonial chamou-se “Vila Pereira d’Eça” ou “Vila Pereira de Eça”, em honra de António Pereira de Eça. Foi destruída durante a guerra civil angolana e pela Força Aérea da África do Sul na guerra de fronteira sul-africana. O início da sua reconstrução só foi possível depois do advento da paz, em 2002. Segundo as projecções populacionais de 2018, elaboradas pelo Instituto Nacional de Estatística, conta com uma população aproximada de 320.000 habitantes. Ondjiva conta com uma extensão superfi cial de 4 980 quilómetros quadrados e um número estimado de 95 618 habitantes, no que se inclui uma densidade de 19 hab/km². A cidade de Ondjiva era a capital do Reino Cuanhama até ao reinado de Mandume ya Ndemufayo, morto em 1917 durante as Batalhas de Cubango-Cunene, na Campanha do Sudoeste de África da Primeira Guerra Mundial. Tornou-se a capital do Cunene quando esta foi elevada à condição de província no ano de 1970; ao receber a condição de capital, passou a chamar-se Vila Pereira d’Eça.