Isto não é normal

“O serviço regional adiantou que está disponibilizado apoio psicológico para acompanhar a família e os profi ssionais de saúde”. Tirei esta parte de uma notícia do Diário de Notícias da Madeira (Portugal), referente à morte de uma criança de oito anos na sala de triagem do Hospital Dr. Nélio Mendonça, no Funchal, no passado Domingo. Notícia assim não é normal por cá. Trata-se de uma morte e este facto é devastador para qualquer família.

O Estado, como se vê, tem disso noção. Mas sabe que o é também para os profi ssionais que dela cuidaram. Perder alguém afecta qualquer um, família ou pessoal médico que se preze e que jura tudo fazer para salvar vidas. Por isso os profi ssionais que lidaram com o caso também precisam de apoio psicológico. Não, não se trata de pessoas fracas, é sinal de uma sociedade noutro nível, com uma relação diferente com a vida, com outra noção do que devem ser os cuidados de saúde. Tudo isto está a milhares de anos luz da nossa realidade, em que um profi ssional deixa uma criança morrer se os pais não tiverem uns trocados no bolso. Se é que se pode chamar de profi ssionais a tais criaturas. E o Estado?

Este está calejado, limita-se a esperar pelas estatísticas do fi m do ano. Aqui, a morte já nem dói. Todos os dias há alguém a falar de um óbito de alguém próximo, desde muito cedo as crianças sabem da morte, cada rua, cada bairro tem vários óbitos por mês. Cada um de nós que se pergunte sobre quantas vezes já ouviu a palavra óbito da boca de um colega ou de um familiar este ano. Se calhar é o país inteiro a precisar de apoio psicológico para perceber que isto não é normal

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