Isabel dos Santos presidente? “Farei o que tiver de fazer”

A herdeira de José Eduardo dos Santos vs. João Lourenço? Este pode ser o cenário que Angola enfrentará em 2022, quando acontecerão as eleições para a presidência

É a própria Isabel dos Santos que o admitiu, em entrevista à RTP3, transmitida nesta madrugada (em Angola). A empresária, que viu as suas participações e contas bancárias em Angola arrestadas na sequência de uma providência cautelar interposta no âmbito de um processo em que o Estado angolano reclama USD mil milhões a Isabel dos Santos, repete a defesa que tem feito sobretudo nas redes sociais, dizendo-se vítima de uma perseguição judicial em Luanda com o objectivo de neutralizála politicamente.

E admite vir a avançar para a presidência. “Farei tudo o que tiver de fazer para prestar serviço à minha terra, Angola”, afirma, e em seguida, quando questionada especificamente sobre se será candidata contra João Lourenço, não hesita: “É possível.” “Não podemos usar a suposta luta contra a corrupção de forma selectiva para poder neutralizar o que achamos que podem ser futuros candidatos políticos”, acrescenta, no vídeo disponibilizado pelo canal público de televisão. “ O que se está a fazer hoje em Angola são processos políticos e que têm que ver com a luta de poder dentro do próprio MPLA”, conclui, justificando a sua vontade com o estado “debilitado” e os “fracos resultados” do partido de Dos Santos e Lourenço.

“Repor factos”

Na entrevista a Vítor Gonçalves, que a empresária gravou em Londres – agradecendo ontem no Twitter a “oportunidade de repor os factos” -, Isabel dos Santos fala ainda sobre o alegado favorecimento que o actual Governo diz ter sido chave para a empresária conseguir acesso às maiores empresas angolanas e a dinheiros públicos, através do pai, então Presidente. Acusações que rejeita em absoluto, considerando a sentença da providência cautelar que ditou o arresto dos seus bens – bem como dos do marido, Sindica Dokolo, e do seu braço-direito, Mário Leite Silva -, uma decisão “baseada em várias mentiras”. “Enquanto filha do Presidente Eduardo dos Santos, sempre fui muito escrutinada e submetida a um grande nível de diligências, pelo que essas alegações me chocam bastante”, afirmou, dizendo- se não apenas surpreendida, mas desiludida com os procedimentos seguidos: “Não me foi dada a oportunidade de me defender, não fomos informados de que havia um procedimento no Tribunal de Luanda, nunca recebi uma notificação, nem pude prestar nenhum esclarecimento. Estou a viver momentos bastante difíceis.”

“Contraditório” só na acção principal

Tratando-se de uma providência cautelar com vista a prevenir a saída ou delapidação de património antes de resolvido o processo principal, a empresária não precisava de ser avisada – nem era natural que o fosse, conforme confirmaram ao Dinheiro Vivo fontes judiciais. Será apenas no julgamento da causa que a opõe ao Estado angolano que acusação e defesa serão ouvidas. Ainda na entrevista à RTP3, a empresária rejeitou as irregularidades que é acusada de ter feito através de empresas como a Esperaza (petróleo), a De Grisogono (jóias), a Unitel (telecom), etc. – e que originam o pedido de restituição de USD mil milhões de Luanda. E negou notícias que têm sido publicadas sobre as suas movimentações para supostamente esconder dinheiro na Rússia, mudar de nome e residência para ocultar bens ou tentar alienar participações em empresas como a Unitel.

A motivação por trás de todas as acusações, repete, como tem feito sempre na sua defesa, é política e resulta de uma tentativa de o “enfraquecido MPLA” e o Governo de João Lourenço a lesarem politicamente para que deixe de ser uma possível candidata de peso à liderança do partido e do país. A atestar a imagem de perda de força do partido, no seu Twitter, Isabel dos Santos dá visibilidade à notícia de uma pesquisa que aponta que João Lourenço ainda tem a confiança de um pouco mais de metade dos angolanos, mas apenas uma estreita minoria de entrevistados se mantém ao lado do MPLA.

error: Content is protected !!