Cidadão que ficou sete anos preso injustamente quer Kz 100 milhões de indemnização

“Não consigo fazer mais nada. Perdi as minhas coisas todas, destruíram a minha vida”, disse Bonifácio Kuenha em entrevista exclusiva ao jornal oPAÍS. o cidadão em causa esteve preso após ser julgado e condenado a 20 anos de prisão pela suposta morte de Daniel Tchali (que apareceu vivo, seis anos depois da sentença). No total, ficou sete anos na cadeia, por isso, pede pelo menos 100 milhões de indemnização ao Estado pelos danos causados

Bonifácio Kuenha foi condenado pelo Tribunal Provincial do Bié a 20 anos de prisão no ano de 2013. No ano transacto, passados seis anos desde a sentença, a suposta vítima mortal apareceu viva e o acusado, depois de algum tempo de espera, foi posto em liberdade provisória. Dada a demora na averiguação da história da ausência da suposta vítima mortal, Bonifácio acabou completando sete anos na prisão. Em entrevista ao jornal OPAÍS, ontem, Bonifácio Kuenha contou que “nada vai bem” na sua vida. Não consegue retomar a vida anterior, perdeu todas as suas coisas, o terreno e a casa.

“Parte das coisas, a família do morto-vivo, enquanto estava na cadeia, vendeu para custear o óbito. Estou desempregado, já não tenho casa e dependo da caridade dos familiares”, conta. Para além de o dinheiro da venda de suas coisas ter sido usado para custear o óbito, serviu também para os gastos relacionados com o acompanhamento do caso em tribunal.

O interlocutor, agora com 28 anos, tem cinco filhos, estes que já não consegue sustentar, pelo que estão a viver com a sua esposa – que pediu a separação quando Bonifácio completou três anos na cadeia. Acha que para recuperar a sua vida, a indeminização ajudaria bastante, pelo que quer que sejam pelo menos 100 milhões de Kwanzas.

“O tribunal, até agora, não diz nada. Acho que aqui no Bié não irão resolver o problema, talvez em Luanda. Só para ter noção da lentidão deste tribunal, na altura em que o Daniel Tchali apareceu eu tinha apenas três anos de cadeia, mas o caso estendeu-se ao ponto de só ter sido posto em liberdade depois de completar sete anos”, lamentou. Pelo facto de ter sido lesado pelo Estado, o cidadão defende que este deve também arranjar alguma oportunidade de emprego para si. “Nesta hora (14h) que falo consigo, estou em casa, sem nada para fazer.

Sem poder ver os meus filhos, sem mulher, sem casa e sem emprego. Estou destruído e preciso de recomeçar a minha vida”, enfatizou. Questionado sobre como está a relação com Daniel Tchali (inicialmente dado como morto, que seis anos depois veio ilibá-lo), Bonifácio Kuenha disse que está boa, continuam amigos, embora o primeiro esteja a
viver na sua aldeia e o segundo na cidade do Cuito. Não têm tido contacto pessoal, mas Bonifácio disse que não guarda qualquer rancor pelo que aconteceu, e já o perdoou.

Estamos à espera da notificação do T. Supremo Contactado o advogado de Bonifácio, Enoque Casongo Chivangue, que foi constituído por via da Ordem dos Advogados do Huambo para prestar o patrocínio jurídico à família do acusado, disse que o réu está em liberdade provisória porque o recurso diz que o Tribunal do Bié terá de revisar a decisão. “Depois de revisarem a decisão é que o réu estará em liberdade definitiva.

Fizemos uma carta dirigida ao Tribunal Supremo a reclamar, porque há muita coisa a mudar, e até agora o tribunal colegial não notificou as partes para que o último julgamento saia”, disse. Enquanto o Tribunal não decidir definitivamente, o pedido da indemnização fica condicionado, segundo o interlocutor. O Ministério Público entende que o facto de ter havido um morto e não existir uma explicação clara, pressupõe-se que Bonifácio seja o suposto causador. “Está-se a fazer uma nova investigação do processo que trará novos elementos que podem agravar, ou não, a situação do réu. Por isso, o tribunal ainda não se pronunciou”, rematou.

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