Falta de rigor gramatical nos textos musicais angolanos entre o “erro e a arte”

Dominantes da língua consideram a falta de rigor gramatical na linguagem musical angolana um abuso a quem não saiba falar bem o Português ou desconheça as regras gramaticais. Entretanto, há quem defenda que é admissível cantar dessa forma, por se tratar de uma expressão artística. Porém, um professor de Música discorda e diz que é possível ser livre artisticamente respeitando a gramática

“Amo r é , amoré, Estamos a casaré, Deus vai abençoaré, nada de mal vai aconteceré”. Este é um excerto da música intitulada “Casamento”, do cantor C4 Pedro, onde se pode observar a falta de rigor gramatical, quer na escrita como na fonética e fonologia na Língua Portuguesa. “Vou se baté no chão, ninguém me põe a mão”, é um outro o trecho de uma música nacional, desta vez assinada pelo cantor Yuri da Cunha, intitulada “E Tudo Mudou”, em que se verifica a mesma falta de rigor linguístico.

Ao invés disto, C4 Pedro podia cantar sem acrescentar sons ao fim de cada verbo, que se encontram no modo infinitivo. E Yuri da Cunha podia substituir o pronome pessoal reflexivo “se” por “me” e bater-se no chão à vontade. Adiante, como eles, há um universo muito vasto de músicos angolanos que canta desta forma. No meio disto, surge uma questão: por que razão cantam eles desta forma?

E o professor de Língua Portuguesa e autor do livro “Ensaboado & Enxaguado”, José Carlos de Almeida “Joseca”, responde que determinados cantores actuam desta maneira por uma questão de populismo. O interveniente da reportagem de O PAÍS continuou, dizendo que a intenção destes cantores é de fazer com que as pessoas se sintam identificadas com a música, o que, a seu ver, é desnecessário e acaba por marginalizar as mesmas. “Já imaginamos se começarmos a imitar os erros dos nossos amigos?”, perguntou retoricamente o professor Joseca Makiesse.

Nível corrente é o adequado

José Carlos de Almeida aconselhou os cantores a usarem o nível de linguagem corrente, já que a intenção destes artistas é a de serem percebidos. “Quando nós falamos de forma corrente, todas as pessoas vão entender, porque a música tem de ter alguma generalidade de pessoas. Se usarmos o português corrente, toda gente vai entender e se sentir generalizada”, acrescentou. “O que nós devemos pedir é que os cantores cantem de acordo a língua portuguesa: amar, beijar, acarinhar, brincar. Isso é que é português, sem a necessidade de se dizer ‘beijaré’, ‘amaré’. E como eles não falam assim, acabam por não ser coerentes”, frisou.

Crivo da Comunicação Social

De acordo com Joseca, a consequência que advém deste populismo “é que as pessoas ficam com a convicção de que a música, embora tenha erros, por ser gravada e por passar na rádio e televisão, dá a sensação de que seja a forma correcta e muitos acabam por falar dessa maneira, sob influência da música”, explicou. Para o autor de Ensaboado e Enxaguado, o que se passa na Comunicação Social acaba por influenciar as pessoas, e nasce a necessidade de se filtrar os conteúdos.

Deu o exemplo de quando foi assistir a um jogo do 1.º D’Agosto, seu clube, e ouviu pessoas dizerem “vuvuzela”, quando se referiam a um instrumento de sopro. Na verdade, conta, esse termo popularizou-se por influência do jornalista e apresentador da TPA Ernesto Bartolomeu, que usou o termo quando fazia a cobertura do Mundial da África do Sul. “O termo correcto é corneta”, rematou.

“Isso não constitui uma falta de rigor gramatical na linguagem musical”

Por seu turno, o linguista Kambolo Tiaka-Tiaka não considera falta de rigor na linguagem musical os cantores dizerem “amoré” ao invés de “amor”. Segundo o especialista, a música tem uma gramática própria, que pode servir de instrumento didáctico para quem esteja a aprender uma segunda língua.

A música, no seu entender, tem essa característica, mas, nem todas devem servir como instrumento ou material de apoio desta ou daquela língua. “É verdade que os músicos devem preocupar-se com o código linguístico normativo e do ponto de vista linguístico temos a norma real e a norma ideal. A real é como nós estamos a falar.

O músico geralmente tem um grupo alvo e a medida que vão cantando, cantam para aquele grupo alvo. E é muito normal essa adicção de uma letra no fim da palavra”, explicou.

Crianças podem ouvir músicas desta natureza, diz linguista

O linguista Tiaka-Tiaka considerou normal uma criança ouvir músicas que estejam em falta de rigor gramatical, pelo facto de os pais estarem aí para as auxiliar. “Trata-se de música. Não devemos imitar o que as músicas nos passam e a criança na escola e no meio em que estiver inserida, vai poder seleccionar o nível de linguagem a falar”, disse.

O especialista deu exemplo da sua filha, que grafava a palavra “quero”, com “K”, por influência do supermercado, mas ele, ao tomar nota, como pai, teve de intervir e explicar-lhe a maneira certa de escrever essa palavra. Incoerência nas formas de tratamento Apesar de estar numa posição diferente da do primeiro interveniente, Kambolo Tiaka-Tiaka, disse que muitas vezes os cantores têm pecado ao cometer alguns erros de incoerência nas formas de tratamento, ou seja, começam uma música a usar o “tu” e depois terminam a usar o “você”.

“O Konde, por exemplo, canta na música ‘Você’: ‘ A ti eu dava, faltei de te procurar’, depois diz ‘Me diga’, ao invés de ‘me diz ou diz-me’. Ainda diz, ‘Cadê você?’. ‘Eu sempre te falei que na minha casa é só você’. São algumas incoerências na forma de tratamento”, descreveu. O linguista ainda citou a música Isabel, de Kueno Aionda, e fez menção do trecho “podes contar comigo como teu marido, mas diz que esqueça essa cena”, onde se verifica o tratamento de Tu e Você.

“A língua não é sólida, a língua é líquida e toma forma em função do seu recipiente”, metaforizou. Erros gramaticais não embelezam músicas Por sua vez, o professor de Canto e Teoria da Música no Instituto Superior de Artes (ISARTE), Bruno Neto, disse que os erros gramaticais nas músicas não as embeleza. “Eu acho que os nossos cantores usam essas muletas para mais fácil alcançarem certas comunidades. Infelizmente, acabam destruíndo as pessoas com essas muletas gramaticais, que de forma alguma se as retirarem da música perderia o sentido.

Existem outras formas de fazer chegar a mensagem sem se distorcer as normas gramaticais”, opinou. Segundo o professor, há outras formas de se fazer música, evitando esses erros. A título de exemplo, mencionou os melismas, que prolongam as terminações sonoras das palavras. “Podemos parar de cantar ‘amoré’ e com a técnica do melisma cantar ‘amoooooor’ (sensação de frequência)”, exemplificou cantando. Por outro lado, o professor de Canto afirmou que em Angola, quando alguém faz algo e o público abraça, muitos vão imitando.

“E aqui alguém cantou ‘amoré’, ‘mamã wé’ e todo mundo começou a seguir a linguagem como algo normal”, apontou. Outrossim, acrescentou que para ele, isso soa a falta de criatividade e de forma alguma ajuda no crescimento intelectual daqueles que ouvem. “Isso traz consequência para todo mundo. Os cantores acabam por se viciar.

E diminuem as suas capacidades de criação. Para os ouvintes, por ouvir sempre a mesma coisa, o subconsciente grava e depois começam a reproduzir. Acabamos por minar o subconsciente da pessoa porque são essas músicas que mais tocam”, lamentou. Escusado de dizer nomes, o professor Bruno Neto avançou que os cantores que fazem músicas do género com frequência “são os que dizem fazer Semba e Kizomba”.

“Não vemos um cantor na dimensão de Filipe Mukenga, Gabriel Tchiema, Totó a cantar ‘amoré’. São músicos que a sua veia artística é extremamente diferente e o público-alvo acaba sendo mais abrangente, mas nós os consumidores é que queremos associar com o elitismo, enquanto eles cantam para todo mundo”, concluiu. Entretanto, fica-se com a sensação de que a falta de rigor gramatical nas músicas angolanas esteja entre o “erro e a arte”, sendo que a ausência desta rispidez na linguagem pode por um lado ser admitida, cabendo ao ouvido saber filtrar e, por outro, atendendo ao contexto socio-linguístico de Angola.

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