Número de mulheres benguelenses envolvidas na agricultura familiar é insuficiente

A agricultura, apesar de fonte de sustento certa para milhares de famílias angolanas, ainda não é “levada a sério”. Segundo especialistas entrevistados, quando o for, poderá não só servir para saída da crise financeira, como para potencializar económica e socialmente milhões de angolanos, principalmente mulheres da região centro e Sul do país, incluindo-se as benguelenses, dada a natureza fértil dos campos no litoral e interior dessa província

A agricultura é a única realidade que milhares de mulheres benguelenses de famílias carenciadas conhecem, todavia, julgando-se pelo lapso entre o potencial agrícola e o real, especialistas crêem que há espaço para empregar muitas mais. Nos municípios do interior de Benguela há maior concentração de mulheres a trabalhar diariamente em pequenas lavras familiares. As culturas não diferem muito de lavra para lavra e, excedentes no final do ano são raros.

Os municípios do Bocoio e Balombo lideram na predominância feminina nos campos relativamente às demais 8 municipalidades e, nas colheitas, é comum obter-se feijão, tomate, milho, batatas, cereais e amendoim, não havendo muita diversidade. De resto, a agricultura familiar é também praticada, com maiores restrições, fundamentalmente, climáticas, no Chongoroi e Caimbambo, porque as culturas são totalmente dependentes das chuvas, sendo temida a fome nos anos em que chove pouco.

Agricultura: área aberta para mulheres e sem discriminação

Nos últimos dois anos, o número de mulheres benguelenses inscritas nas organizações agrícolas locais multiplicou-se em 100%, passando para mais de 20 mil camponesas, uma fasquia que tem margem para crescer muito mais. Ainda em minoria, quando comparadas aos mais de 30 mil homens associados, perfazendo um total de cerca de 60 mil campestres organizados na província, estão distribuídos entre 274 associações de camponeses e 174 cooperativas agropecuárias. Numa visão patriarca, o número de mulheres dado refere-se àquelas que são mães solteiras pois, quando se trata de casadas, no lar é apenas contabilizado como cooperante o “chefe de família”, ou seja, o homem.

Leonor Fundanga, directora do Gabinete Provincial da Família e Igualdade do Género, acredita que “a mulher rural já cresceu na mentalidade, conhece agora a importância de estar enquadrada nas associações e cooperativas agrícolas”. A mulher rural já “reconhece que estudar é importante para o desenvolvimento da sua família”. Estudando, estarão capacitadas para acompanhar melhor os filhos, instruindo-os nas tarefas, abrindo-lhes portas para um futuro diferente e, quiçá, promissor. Assim, “muitas delas já estão enquadradas na alfabetização, outras a estudar em níveis aceitáveis,” por conseguinte, “estamos no bom caminho”, regozijou-se a directora Fundanga.

Resistência à mudança

João Januário, presidente da UNACA em Benguela, União Nacional dos Camponeses Angolanos, declarou que, instruir e instituir o “cooperativismo e associativismo (junto) das comunidades” é o foco da sua rotina laboral. Os 27 funcionários provinciais, incluindo a direcção, fazem trabalho técnico, indo ao campo para acompanhar a progressão dos agricultores, apoiando mediante os seus recursos, sendo a mudança de hábitos uma barreira frequente, independentemente do género. “Mesmo as técnicas, muita gente ainda não aceita a forma moderna”, mas, porque a natureza humana é social, felizmente, alguns “vão copiando aqueles que aceitam”, desapegando-se das práticas tradicionais herdadas dos ancestrais, informou. Ao longo dos anos de trabalho com as comunidades rurais, João Januário tem vindo a notar, lentamente, maior aceitação das metodologias de cultivo ensinadas às camponesas e camponeses, reconhecendo ser uma mudança morosa.

A agricultura como “empoderamento da mulher”

Ana Custódio é agricultora independente, na Ganda. Para si, “é um processo que pode reduzir a pobreza nas famílias,” constituindo alternativa à migração, porquanto “todas as mulheres estão a correr para as cidades, principalmente Luanda”. É um erro, considera, “porque pensam que o custo de vida é mais fácil, mas, estão a encontrar muitas dificuldades, ficam doentes e algumas acabam por morrer”, tendo tido relatos desses na sua vizinhança. Ao invés de se tornarem zungueiras nas grandes cidades, deveriam “dar valor ao potencial, está mesmo no local, só falta o incentivo para transformar,” aconselhou, referindo-se ao investimento na agricultura, por isso, fundou uma associação. A cidadã é professora, tem 43 anos e é mãe solteira, tendo quatro filhos pequenos e duas jovens adultas que são também professoras.

O seu dia-a-dia no município da Ganda resume-se em dar aulas durante as manhãs de Segunda a Sexta-feira e cultivar a sua lavra, de 2 hectares, à tarde, e nos finais de semana. “Por isso é que estamos a incentivar (mulheres) a não se limitarem a uma profissão”, apelando a que apostem na agricultura, mesmo para quem tem um emprego fixo na função pública ou no privado, é uma mais-valia. Semeia milho, feijão e batata-doce, pretendendo experimentar o cultivo de cereais.

Obtendo alimento e lucros suficientes, contrata 10 mulheres para a ajudar no cultivo, uma forma de ajudar quem está no desemprego, oferecendo postos provisórios. Segundo Janísio Salomão, economista, esse “empoderamento da mulher”, por intermédio da maior participação na vida agrícola, é imprescindível para superar a baixa produção nacional, porque, “antes da independência tínhamos um pico elevado de produção agrícola”. Por outro lado, defende que o direito à titularidade das terras que cultivam há anos, é factor motivacional para os agricultores, ajudando “a revitalizar este sector que, infelizmente, no nosso país, ainda anda muito adormecido”. Para combater a crise, crê Janísio, “se lhes forem oferecidas condições de trabalho, se forem potencializadas, ajuda no combate à fome.” Nos campos, “enquanto existir empoderamento da mulher, ajudará a reduzir a pobreza no país.”

Uma perspectiva sociológica…

Vikeia Cambulo, sociólogo, observa que “o aumento do número de mulheres na agricultura é positivo, mas pode demonstrar um conjunto de barreiras noutros sectores”, advertiu, referindo-se à falta de emprego condicionada por estigmas sociais. Em ramos como a indústria, por exemplo, que exigem mais conhecimentos técnicos, logo, instrução académica, tende a haver discriminação positiva para os homens e negativa para as mulheres, reflectiu o sociólogo. “Num país com terras aráveis, com rios, não se admite que haja focos de fome como houve em 2019 no Sul de Angola, mesmo aqui na província e município de Benguela, em algumas comunas”, lastimou.

Por outro lado, “a agricultura é o sector cujo salário mínimo é o mais baixo.” Logo, com o aumento de mulheres camponesas, subentende-se haver “mais mulheres a fruir de menor salário na nossa estrutura económica.” E, “o grande problema” envolve também a distribuição dos hortícolas e frutas. Várias comunidades ficam isoladas no período das chuvas, assim, “a resposta tem de ser multi-dimensional” começando-se pela “construção de vias terciárias,” alvitrou Vikeia. Estando essas condições asseguradas pelo governo, “o resto depois aparece, centros de distribuição, surgem oportunidades de negócio, os produtos agrícolas também fazem as pessoas ricas.” Como bons exemplos de agronegócio, referiu Namíbia e Brasil.

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