Irad Jéssica: “Em Angola, o cristianismo denegriu a imagem das curandeiras”

Artista plástica e grafiteira Irad Jéssica fala em entrevista da sua carreira e dos meandros sobre a preparação da exposição individual “Curandeiras”, enquanto integrante do colectivo Verkron

POR: Cássia Clemente

Integra o colectivo Verkron, que filosofia segue este projecto?

Somos artistas, mas vai além disso, funcionamos também como irmãos, somos uma irmandade, além de artistas plásticos, graffiteiros e músicos buscamos uma energia superior.

De que forma se deu o seu encontro com o colectivo?

Fui encontrada por eles, por saber desenhar também, a princípio era o que fazia, eles convidaram-me, tinha uns 17 anos, mas já nos conhecemos antes de estar como membro do colectivo em 2008.

Que outros trabalhos fez além desta exposição sobre as curandeiras?

A solo é a primeira vez, mas fiz trabalhos em grupo, com membros do colectivo.

Como está a ser essa experiência a solo?

Agitada, mas bonita. É a primeira vez que estou a montar uma exposição, embora os meus irmãos me estejam a ajudar, tenho estado aqui a tempo inteiro, é mais difícil, mas gosto. Estou a preparar a mostra desde o ano passado. Não tinha a ideia de fazer uma exposição, o conceito foi surgindo pelo meu interesse na magia e medicina africana e de produtos naturais, a vontade de colocar esse tema no meu trabalho veio de tudo que fui aprendendo acerca das curandeiras angolanas.

Com que sensação ficou depois de ter apresentado a exposição?

Mais aliviada, o processo de criação é mais duro, foi pesado, mas também me trouxe muito conhecimento, estudei de forma mais intensa, agora estou leve e a viver esta parte muito bonita.

Quem são para si as curandeiras?

Para mim são essências femininas elevadas, gosto de as chamar mãe curandeira, porque sinto que há uma componente feminina muito forte, de onde vêm as energias e a habilidade de comunicar num plano superior, a partir do qual se estabelece também uma comunicação no plano físico, são tudo campos energéticos, porque a tradução que temos do plano físico e espiritual é muito limitada.

A inspiração para esse trabalho foi a correlação entre estes dois campos?

Isso e o facto de vivermos numa era em que o ser humano está mais interessado na espiritualidade, mas a espiritualidade que vem de fora, digo do estrangeiro é a que está mais acentuada, as pessoas estão mais interessadas nela por ser mais divulgada apesar de que a africana também esteja, mas não da mesma forma.

Como assim?

Ocorreu-me esse questionamento de como será entre nós, em África e mais especificamente em Angola como fazíamos e fazemos, porque não tínhamos como comprar as ervas que agora adquirimos, lá fora então o que se usava aqui? Foi o que me despertou o interesse em fazer este trabalho e fazer os pacotes que fiz com ervas.

Pude perceber que o foco desta mostra são mulheres, os desenhos estão muito ligados ao rosto humano e estão representadas mulheres de diferentes faixas etárias, o que nos querer transmitir com isso?

Acho que a identidade de cada pessoa está mais expressa nos traços do rosto, sobretudo nos olhos que amo em especial, porque para mim são um espelho, acho que a partir do rosto conseguimos ver a história e o amadurecimento de cada pessoa. E o facto de serem só mulheres, é porque estou a passar por uma fase em que presto mais atenção à minha essência feminina e por concluir que são estágios que se completam, a deusa-donzela, deusa-mãe e deusa-anciã (feiticeira), veio-me a vontade de transmitir a geração de ciclos de conhecimentos que expus.

Refere que estamos mais voltados em Angola para práticas espirituais que vêm de fora, em termos gerais, como é que vê a espiritualidade no quotidiano angolano?

Ainda há um certo tabú em relação à espiritualidade africana, vejo que as pessoas têm muito medo de termos como curandeira, feiticeira, mágica etc. e isso faz com que acabemos por perder muitos dos valores da nossa identidade africana. Infelizmente, passamos pelo colonialismo que também nos fez perder a identidade, para perceber a identidade física de cada tribo tínhamos, imagino o que seria espiritualmente, como as pessoas se conseguiam ver para além do campo físico.

Falou com curandeiras, onde as procurou?

Chegou a acompanhar algum ritual? Aconselharam-me a ir a outras províncias, mas não pude ainda fazê- lo. O interessante foi conversar com algumas curandeiras sobre a utilização de ervas. As senhoras que as usam fazem também alguns rituais. Elas conseguem perceber quem as procura para a cura de doenças ou indisposições e quem as procura por querer mais. Ensinam como curar indisposições do espirito. Houve uma que me deu uma explicação profunda sobre ervas que servem para a limpeza espiritual.

Pode partilhar connosco um pouco dessa explicação?

Ela sentiu um certo receio, mas acabou por me dizer que era a erva usada para afastar maus espíritos, requer uma fumaça intensa dentro de casa, ao mesmo tempo que se faz uma oração em voz alta, com autoridade de forma a mostrar aos maus espíritos quem manda naquele espaço, assim os afastas de casa, como disse ela.

Acha que as curandeiras têm medo de falar das suas práticas que curam?

Penso que actualmente há uma abertura em relação às práticas de medicina natura e de feitiçaria. Antigamente, em todo mundo as curandeiras eram caçadas, chamavam-nas esposas do diabo, mesmo na Europa houveram perseguições como Malleus Maleficarum (O martelo das Feiticeiras) um livro que fala sobre numa edição veneziana de 1576. Em Angola, o cristianismo denegriu a imagem das curandeiras, contudo, eram elas que faziam partos e cuidavam da saúde das pessoas de muitas tribos, mas no tempo colonial não eram bem vistas.

Actualmente as curandeiras e as medicinas alternativas são mais aceites e valorizadas? Qual é a percepção que tem desse assunto?

A aceitação não é total, mas já se respeita o facto de que são práticas que sempre existiram e vão continuar a existir. No mundo o processo está mais adiantado, em Angola embora estejamos familiarizados com estas práticas, não são aceites de forma aberta, mas já não se julgam as curandeiras como se julgava.

E como desmistificar o tema?

Penso que sempre será oculto, mas só entra quem realmente quer perceber e transmitir de forma aberta, desde sempre foi assim. Somos descendentes de muitas destas pessoas místicas, devemos ter esse orgulho de as ter no nosso meio e é pena estarmos a perder o que de bom se encerra nas práticas que são usadas. Esta exposição é para mostrar este lado da nossa sociedade e reaprender, pessoalmente busco algo mais.

Como é que as curandeiras eram vistas antigamente social e culturalmente?

No tempo em que a mulher era vista como divina, por trazer a vida ao mundo, o seu corpo era tido como um templo, as curandeiras eram vistas como divindades, como fontes de sabedoria e conhecimento, reconhecia-se que emanavam energia e espiritualidade, eram como líderes ou professoras.

Houve um tempo em que a sociedade era mais matriarcal mas passou a ser quase o contrário. O que podemos fazer para empoderar espiritualmente essas mulheres?

As mulheres devem estar unidas porque separadas vai continuar a ser o caos, devemos criar movimentos nos media e ao nível social para tentar resgatar os valores dignos da mulher curandeira, sem chocar com o sexo oposto porque também existem curandeiros e têm as suas histórias. E fazer perceber as pessoas que, no básico, não somos diferentes, somos todos carne e osso e temos todos a necessidade de conhecer o propósito da vida em si e de todas as energias que sempre tivemos.

E em relação aos homens curandeiros, o que é que conseguiu perceber?

Vivemos uma época mais patriarca, mas senti que os homens também se sentem silenciados e querem se expressar. Porque também têm a necessidade de ser compreendidos, sentiram uma certa paz, ao verem uma mulher a ser capaz de puxar este assunto para o debate.

Como surge a ideia desta exposição e por quê agora?

Em Setembro tivemos a nossa exposição colectiva e apesar de já estar a estudar, por iniciativa minha, a questão curandeiras e feitiçaria, perguntou-me o Kiluanji Kya Henda se queria fazer uma apresentação individual, elegi este tema já que estava a debruçar sobre o assunto.

Dentro do colectivo que outras temáticas tem abordado?

De facto têm sido mais temas virados para a espiritualidade em vários campos, do divino feminino, divino masculino, portanto são temas que estão interligados.

Dentro do colectivo que outras temáticas tem abordado?

De facto têm sido mais temas virados para a espiritualidade em vários campos, do divino feminino, divino masculino, portanto são temas que estão interligados.

Perspectivas. Vai continuar neste tema?

Pretendo entrar de forma mais profunda neste tema por ser um tema complexo e com muitos campos para explorar.

Como é que este trabalho a influenciou em termos pessoais?

Confesso que senti receios antes e agora considero mais como um respeito pelo qual me interesso de forma positiva, porque estive durante algum tempo com dúvidas sobre como seria a espiritualidade e não sabia a quem ir buscar informação acerca disto nem com quem aprender, com a investigação que tive que fazer para as obras, acabei por me encaminhar para pessoas com estes conhecimentos e estou mais direccionada para esclarecer as questões pessoais que me coloco em relação à minha essência africana.

Acha que os angolanos que viveram fora sentem-se mais impelidos a procurar a sua identidade?

Acredito que a construção de uma personalidade tem que ver com esses factores, “branquitude” e “negritude”. Pelo menos para mim, sei que sou uma mulher negra e estando fora o que mais buscava era a minha essência negra, na Europa há menos negros e o que conseguem transmitir de África de uns para outros é muito pouca coisa, os negros que vivem fora na sua maioria não têm muito contacto com África. Acho que faria bem voltar à África e absorver certas vivências.

Sofreu racismo na Alemanha?

Só ao chegar a Angola as coisas começaram a fazer sentido e até agora está a ser uma aprendizagem, porque, por outro lado, aqui também sofri bulling na escola, pelo meu comportamento europeu, era vista como estrangeira, daí que os tabús são muito engraçados, estava na minha terra e era olhada como estrangeira. Há também os do norte e os do sul, apercebo-me em família, mas estou no sítio certo para saber quem sou.

Em Luanda assiste-se a manifestações de racismo?

Acho que apenas na forma como as pessoas se expressam, porque dizem aquele branco, aquela branca mas não referem à identidade das pessoas, porque a cor não nos define, mas são problemas sociais que estão presentes e noto que há quem queira mudar, inclusive agora já não nos referimos às pessoas brancas ou pessoas de fora de uma forma tão agressiva, acho que se nota quando és negro fora e quando és negro em África.

Como assim?

Acho que o negro quando está fora, e sobretudo quando já nasceu fora, é mais notado pela sua essência africana, houve uma senhora no Brasil que me questionou se em África a pobreza é mesmo uma realidade a todos os níveis? Os africanos são conotados com uma realidade de pobreza extrema a todos os níveis e, por isso, quando os africanos regressam e percebem que África é rica em muitos aspectos, livram-se do tabú de que são apenas pobres.

Em África não nota que há privilégios em relação sobretudo à posição económico-social das pessoas não negras?

Acho que o racismo é muito mais acentuado no exterior e que é lá que ainda há muito por se fazer quanto à questão do negro ser visto como inferior, é talvez um resquício do tempo da escravatura que vai permanecendo na mente das pessoas. Mas noto que os negros também atingiram um nível que já lhes permite protestar e tentar mudar as coisas. Há muito trabalho a fazer, ao nível social, sobretudo nas escolas, na educação das pessoas.Na minha visão, há uma certa cegueira porque os estrangeiros/ brancos têm privilégios mas já nascem com eles, não conseguem perceber o quão privilegiado são, já nascem com toda essa carga de uma melhor condição de vida, não se dão conta e acredito que se questionem também.

Como o seu trabalho pretende contribuir para combater a desigualdade racial?

Despadronizarmos dessa indiferença quanto à nossa cor, tentar ir a fundo e fazer perceber que não se trata de ser negro ou branco, mas é muito mais que isso, daí a espiritualidade como um guia creio eu.

Acha que o afastamento das nossas raízes e práticas espirituais, devido à globalização e não só, modifica a nossa condição social e económica enquanto povo?

No interior do país é diferente. Também se perdeu muito, mas está- se mais perto do que sempre foi. Luanda por ser a capital leva-nos mais para fora, aqui estamos muito distantes e muito pouco interessados nas nossas práticas espirituais apesar de que recentemente isso tem mudado aos poucos. Por outro lado, vejo pessoas a quererem trazer de volta a nossa cultura, mas de forma comercial e industrial o que é triste, porque o conhecimento não deve ser pago, deve estar acessível a todos. Mas é bom ver que está a voltar o interesse pelas nossas tradições.

Em relação aos materiais que escolhe para trabalhar, onde recai a preferência?

Desenho a carvão. Ao estudar arquitectura que é o curso que estou a seguir, acabei por me interessar por desenhos a carvão, gosto muito da cor preta e acho que o carvão tem uma certa força para expressar pensamentos, e pelo facto de gostar da textura. O papelão é um material alternativo que me permite não gastar muito dinheiro e mostrar beleza. Por serem recicláveis também permite a defesa do meio ambiente bem como ter uma postura menos consumista.

Houve intenção da sua parte em homenagear também a mãe natureza?

Sim, esforcei-me para buscar coisas que tivessem que ver com a natureza, daí os pacotes que fiz com as ervas, a ideia era mesmo venerar a natureza e o carvão desde as pinturas rupestres que eram muito usadas, e anda é usado.

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