Annus horribilis

Pelas melhores ou piores razões, 2019 e 2020, serão certamente os anos que ficarão na memória dos angolanos que puderem vivê-los. Antes disso, 2017 marcou uma nova fase, por se tratar daquele em que, passados mais de 38 anos de governação, o Presidente da República, José Eduardo dos Santos, deixava o poder, quase quatro décadas depois de ter recebido a liderança do país e do partido. Outrora, estes três anos, certamente teriam uma classificação qualquer, à semelhança do que ocorria nos primeiros anos após a independência. Para quem já conseguia enxergar algo na década de 70, lembrar-se-á que em 1978 decidiu-se, pelo partido que dirigia o país, como sendo o ano da agricultura, um desiderato inalcançável passados mais de 40, com a questão da produção e do escoamento a ser uma autêntica dor de cabeça. O mesmo poderíamos dizer em relação aos anos seguintes. Procurou-se resolver, ou no mínimo minimizar, a problemática da formação de quadros atribuindo a 1979 como sendo o ano para se vergar tal objectivo. Os dois anos posteriores, isto é, 1980 e 1981 foram consagrados exclusivamente para a ‘Produção’, no primeiro caso, e ‘para Vigilância e Controlo’ no segundo. Outros lemas surgiram. Cada um deles virado para um propósito específico, inatingível ao que parece, se tivermos em conta que quatro décadas depois, muitos dos projectos e programas traçados estiveram aquém. Os lemas eram apenas lemas. E nada mais. Os ventos da democracia acabaram com alguns destes prazeres do monopartidarismo que faziam com que, ao toque da hora zero do dia 31 de Dezembro, todos os anos, os angolanos se concentrassem à escuta das rádios para receber as directivas traçadas pelo MPLA, que até então dirigia sozinho o país, com uma rebelião à perna fruto das desavenças de Alvor. O ano da reconstrução do socialismo tombou. Na década de 90, independentemente dos acontecimentos, passamos a engolir os anos a seco. Já não nos podia ser imposto qualquer lema, embora esporadicamente os políticos, líderes religiosos, associativos, desportistas e até jornalistas tentassem. Não é favor nenhum perceber que já houve quem tivesse vivido uma ‘Nova Vida’ a partir da década de 90, ou uma ‘Tolerância Zero’ e tantos outros adjectivos. Lembro-me de que, num dos seus habituais escritos, o jornalista Ismael Mateus tenha proposto o período entre Agosto de 2016 e Agosto de 2017 como sendo o ‘Ano do Rigor e da Disciplina’. Mas, passado um ano, os dois anos seguintes, isto é, 2019 e o presente 2020, ainda correm o risco de serem baptizados por muitos como ‘annus horribilis’. Há alguns anos, no Tribunal Provincial de Luanda, o então comandante da Polícia, Quim Ribeiro, dizia que se abrisse a boca o país não iria acordar no dia seguinte. Bluff. Não só se calou, como o país voltou a ser o mesmo. Foi preciso mais alguns anitos para que na verdade o país não fosse o mesmo. E alguns teimam em não acordar Mas os próximos prometem. Nesta sacada de toma lá, dá cá, da Cidade Alta há um Kasparov que insiste em novas jogadas. Aliás, não faz muito tempo que havia prometido um xeque-mate. Na ausência de uma Rainha, dá indícios de querer chegar ao Rei. Sem um bispo no encalço, todas as peças disponíveis podem ser alvos. Há quem fale em jogadas perigosas, mas o mestre FIDE não desarma. Esmera nos próximos passos e recebe, como sugestão, do outro lado três novas peças que devem ser incluídas no jogo. É pegar ou largar? Se para melhor ou para o pior, cada um irá tirar as suas conclusões sobre os próximos dias deste ano ‘horribilis’ para muitos. Não há como dormir em paz. Uma paz que para muitos estaria resumida num pedaço de pão, água, medicamentos e não em milhões de dólares que alguns dos peões neste jogo têm, com fartura.

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