Falta de obras empurra o preço do cimento para baixo

O preço do saco de cimento de 50 kg, que até Dezembro último chegou aos três mil kwanzas, em quase todo o país, regista uma redução para preços que oscilam entre os dois mil e 400 e dois mil e 600 kwanzas nos mercados de Luanda, mercê do abrandamento da economia e da baixa procura no sector da construção civil

Quinito Bumba / ANGOP

 

Matéria-prima principal para o sector da construção civil, obras públicas e imobiliário, o cimento não escapou à “fúria da crise” tendo em conta que a procura reduziu, devido à paralisação quase total das obras, situação que obrigou as cimenteiras a redireccionar as suas estratégias de venda para o mercado externo.

Paradoxalmente, a redução da procura generalizada de cimento em todo o país não se traduziu na estabilização do preço, pelo facto de nos últimos dois anos ter aumentado, por força da nova política cambial e da consequente desvalorização do Kwanza.

Com a depreciação do kwanza, as cimenteiras viram os seus custos operacionais nivelados para cima, com a importação de combustível e equipamentos.

No entanto, a redução nas últimas três semanas do preço do cimento na capital do país é motivada, essencialmente, pela fraca procura desse produto, tendo em conta a perda do poder de compra das famílias e a quase paralisação de grande parte de projectos de obras públicas e privadas, principais consumidores do cimento.

Apesar dessa redução, os revendedores e clientes finais consideram ainda elevado o preço actual, comparativamente aos meses anteriores (Outubro/Novembro), quando o saco de cimento custava entre mil e 800 e dois mil kwanzas.

Ao atingir os três mil kwanzas em Dezembro de 2019, o preço do cimento bateu o record, por ser pela primeira vez que se comercializou a esse preço na capital do país.

A par de outros materiais de construção, o preço actual do cimento está a retardar a concretização do “sonho da casa própria” de muitos cidadãos e afectar a rentabilidade das fábricas e dos revendedores, que têm registado uma queda significativa nas suas vendas.

A título de exemplo, a Nova Cimangola, a unidade fabril mais antiga do país, tinha uma produção de dois milhões de toneladas/ano, mas agora está fixada em um milhão e 200 mil toneladas, apesar de manter-se constante os níveis de venda de 100 mil toneladas/mês.

 

Revendedores não encontram razões para aumento do preço

O consumo de cimento, no auge (2005-2014) do sector da construção civil, obras públicas e imobiliário, era de seis milhões de toneladas, o que permitia ao país ter um excedente de dois milhões de toneladas. Hoje, com a quebra na procura, esse excedente tende a aumentar.

Perante esse cenário, os revendedores interrogam-se das razões das constantes variações do preço do cimento quando a capacidade/oferta de produção das cinco cimenteiras do país ronda os oito milhões de toneladas/ano, contra uma procura de cerca de seis milhões de toneladas por ano.

O revendedor de cimento no mercado do Zango 4, em Viana, José Calipa, diz não haver razões claras que justificam as constantes subidas do preço nas fábricas, por ser um produto fabricado em grandes quantidades no país, utilizando maior parte da matéria-prima local.

No negócio há mais de dez anos, José Calipa defende a implementação de medidas urgentes, de modo a estabelecer um preço que se ajuste à realidade socioeconómica do país.

Segundo José Calipa, até Novembro de 2019, o custo do saco de cimento rondava entre mil e 650 a mil e 950 kwanzas na fonte/fábrica de Bom Jesus.

Com esse preço, o comerciante conseguia comprar 800 sacos, mas com a subida para dois mil e 200 kwanzas, em Dezembro, as quantidades de compra reduziram para metade (400 sacos).

O revendedor, que está a comercializar a 2.400 kwanzas/saco, afirma que o actual preço também está a afugentar os clientes e reduzir o volume de vendas, que tem oscilado entre cinco a dez sacos/dia, contra os mais de 50 sacos que vendia antes da subida do cimento.

Quem também sente o impacto negativo do actual preço do cimento é a comerciante Raquel Tanganica, que optou pela modalidade de “sócia” para conseguir manter o negócio.

“A situação está mal. Para continuar com o negócio estamos a juntar dinheiro com as outras revendedoras de cimento para conseguir comprar pelo menos a metade da quantidade que temos adquirido”, lamenta.

Há oito anos nessa vida, também no mercado do Zango 4, Raquel Tanganica considera o actual momento o mais difícil para quem depende somente das vendas do cimento para sustentar a família, pois há dias que nem se consegue vender um saco.

Afirma que anteriormente, quando o preço rondava entre mil a 1.300 kwanzas, conseguia vender mais de cem sacos por dia, mas actualmente está difícil comercializar cinco ou dez sacos/dia.

Com esse volume de venda, refere, a mercadoria faz mais de um mês para ser vendida na totalidade, contra as anteriores duas semanas que permanecia no posto de venda contentorizado.

O mesmo cenário é vivido pela revendedora Domingas Miguel, comerciante há 17 anos no Mercado Asa Branca, que antes comprava um camião de 720 sacos, mas actualmente só consegue 400 sacos, resultado da fraca procura e do aumento do preço.

Segundo a comerciante, o actual preço limita os clientes em comprar grandes quantidades de cimento, sendo que a média de venda ronda entre três e cinco sacos/cliente, enquanto anteriormente compravam 20 a 30 sacos diários.

Sugere que o cimento seja comercializado pelo menos a mil e 500 kwanzas/saco na fábrica e ser revendido a mil e 800 no mercado.

Zita Pontes, uma das clientes que está a construir uma habitação no Zango 3, aponta o aumento de preços dos materiais de construção, em particular o cimento, como uma das razões do atraso da conclusão da sua obra.

A cliente pede que o preço do cimento seja revisto para pelo menos mil e 500 kwanzas por cada saco, visando ajudar as pessoas de baixa renda que pretendem realizar ter casa própria.

Em função do actual preço do cimento, as fábricas de blocos também foram obrigadas a aumentar o preço.

Nessa situação está a “Rio Joma”, em Cacuaco, que foi forçada a subir o preço de 90 para 120 kwanzas/bloco, segundo Tito Afonso, gerente da unidade fabril.

De acordo com o responsável, a empresa, que emprega 25 trabalhadores, também comercializa cimento ao preço de dois mil e 500 kwanzas, comprando da fonte a dois mil e 300 kwanzas.

Durante a reportagem da Angop constatou-se que no mercado do Kicolo, o saco de cimento está a ser comercializado a dois mil e 600 kwanzas.

 

A visão do consultor empresarial

A propósito da crise do mercado do cimento, o consultor económico Galvão Branco sublinhou que o sector cimenteiro atravessa um momento muito crítico, derivado da redução do nível de obras públicas e da quase paralisação do sector imobiliário privado.

Esse factor, afirmou, baixa a procura do cimento e faz com que maior parte das cimenteiras não comercializem acima dos 50% das suas capacidades de produção.

Considerou a indústria cimenteira um sector muito exigente e complexo, que precisa sempre de divisas para fazer face à importação de matéria-prima e serviços especializados para continuidade da actividade.

Entre várias razões que elevam o preço do cimento no mercado nacional, apontou a dificuldade que as empresas enfrentam no acesso às divisas e a constante desvalorização do Kwanza.

Além do cimento, os outros materiais de construção civil como a chapa de zinco, varão de aço e eléctrodo para soldadura também continuam a sofrer com a alta dos preços.

A título de exemplo, em alguns mercados de Luanda, um feixe de varão de aço (com 10) está a custar 27 mil kwanzas, enquanto uma chapa de zinco de seis metros de comprimento custa 11 mil kwanzas.

Uma caixa de eléctrodo custava 18 mil, mas actualmente está a 28 mil kwanzas. Um camião de areia custava 25 mil kwanzas, contra os actuais Akz 50.000.

 

Nova Cimangola justifica variação do preço

Apesar da maior parte da matéria-prima usada pelas cimenteiras ser adquirida no país, as constantes alterações da taxa de câmbio e consequente desvalorização da moeda nacional (Kwanza) são apontadas como as principais razões imediatas da subida do preço do cimento nas fábricas e, consequentemente, nos mercados.

Fruto dessas condicionantes, a Nova Cimangola foi obrigada a aumentar de 1.950 (Novembro) para 2.300 kwanzas (Dezembro) o preço do saco de cimento, para manter os níveis de produção e garantir a operacionalização da fábrica.

Com a alteração do regime cambial em 2018, e consequente desvalorização/depreciação do Kwanza, o custo de importação do carvão mineral, peças específicas para manutenção das fábricas e serviços especializados sofreram um acréscimo de quase 30 por cento, segundo o administrador delegado da Cimangola, Pedro Pinto.

De acordo com a fonte, na maior parte das situações, o actual regime cambial não permite pagamentos imediatos na importação de algumas matérias-primas, por causa das limitações existentes na obtenção das divisas.

Por exemplo, recentemente, a Cimangola comprou/importou, a crédito, um navio de carvão mineral ao preço de três milhões de dólares, mas com a desvalorização da moeda nacional, o material teve um valor adicional equivalente a mais de 500 milhões de kwanzas (30%).

“Quando as empresas têm um impacto grande e imediato na sua estrutura de custos, a primeira alternativa é o aumento de preço de cada produto, para conseguir manter a operacionalização da fábrica”, clarificou.

Apontou o Imposto sobre Valor Acrescentado (IVA), em vigor desde 01 de Outubro de 2019, como outro factor que acelerou a estrutura de custos da Nova Cimangola.

Com adesão ao IVA no primeiro mês (Outubro), a Nova Cimangola registou um acréscimo de 500 milhões de kwanzas nas suas despesas, comparativamente ao Imposto de Consumo (IC).

A esses custos, afirma, foi adicionado os 500 milhões de kwanzas resultante da desvalorização da moeda nacional, o que totaliza mil milhões de kwanzas nas despesas da empresa só no primeiro mês de implementação do IVA.

Ainda assim, a fábrica não aumentou o preço do cimento em Outubro, por causa da concorrência e da baixa procura desse produto, tendo se repercutido negativamente na rentabilidade da empresa.

“Tínhamos um Imposto de Consumo (IC) menor (10%), mas com a introdução do IVA passamos a ter um imposto maior (14%), ou seja, o cálculo do IC era feito com base em 10% dos custos de produção, enquanto do IVA é feito em 14%”, explica.

Regra geral, define, o IVA é um imposto aplicado nas compras das empresas, que depois deve ser deduzido/atribuído ao consumidor final, facto que não acontece no sector cimenteiro, porque esse imposto ainda não abrange todos operadores.

Segundo o responsável, a desvalorização do Kwanza e a implementação do IVA tem dificultado a operacionalidade da indústria cimenteira no país, tendo em conta o abrandamento do sector da construção civil.

 

Medidas para redução do preço

A Nova Cimangola vai, a curto prazo, reduzir os custos de produção, utilizando combustíveis mais baratos (Combustível Derivado de Resíduos Sólidos), uma iniciativa que conta com o apoio do Executivo angolano.

Para Pedro Pinto, as empresas devem adoptar fontes alternativas para equilibrar o preço do cimento no mercado nacional que passam pela diversificação de produtos, inovações tecnológicas e redução dos níveis de importação de matéria-prima.

Uma das alternativas adoptadas pela Nova Cimangola foi potenciar a sua fábrica para o uso do carvão mineral, em substituição do combustível Heavy Fuel Oil (HFO), usado actualmente por maior parte das cimenteiras do país.

Segundo o administrador delegado, a utilização do carvão mineral na fábrica é muito mais barato do que o fuel, mas com as constantes alterações da taxa de câmbio, o uso do carvão fica mais caro em relação ao fuel, devido aos custos de importação.

Além da actual importação do carvão mineral, a Nova Cimangola prevê importar outras matérias-primas para o fabrico de cimentos especiais, tendo em conta a construção de novas barragens e portos marítimos que o Governo prevê erguer nos próximos tempos.

 

Níveis de produção das cimenteiras

Com uma capacidade instalada de perto de cinco milhões de toneladas de cimento/ano, em 2019 a Nova Cimangola registou um aumento na sua produção, atingindo uma cifra de um milhão e 200 mil toneladas, superando as um milhão e 100 mil toneladas de 2018.

Os níveis de produção da Nova Cimangola foram reforçados no inicio deste mês, com a entrada em funcionamento da sua nova linha de produção automática, situada junto da ponte cais, em Cacuaco, que está a produzir 700 toneladas/dia, de acordo com Pedro Pinto.

Com mais de 15 trabalhadores, a linha de produção automática permite redução de custos com estiva manual, maior rapidez na produção, entrega e estocagem.

Além da fábrica de cimento, que funciona com carvão mineral, a Nova Cimangola possui uma outra unidade fabril de clinquer em Cacuaco, inaugurada em 2017, e sete linhas de produção de vários tipos de cimento na sua sede.

Um milhão e 500 mil toneladas de clínquer/ano (uma média de 4.100 ton/dia) é a média de produção anual dessa fábrica.

As principais matérias-primas utilizadas para a produção do cimento são a argila, o calcário, gesso e mineiro de ferro, materiais que estão disponíveis nas localidades onde foram instaladas as cimenteiras.

 

Exportação

A Nova Cimangola exporta apenas o clinquer, cimento não moído, por ser mais resistente à humidade do mar e apresentar poucos riscos ao ser transportado via marítima.

Em média, a Nova Cimangola tem exportado entre 100 mil e 200 mil toneladas de clinquer por ano.

Camarões, Gana e São Tomé têm sido o destino preferido do clinquer da Cimangola, por serem países com mercados favoráveis competitivos para Angola, quer na transportação quer na venda desse produto.

Os preços praticados nesses mercados oscilam entre 29 a 35 dólares a tonelada.

Fruto dessa exportação, auxiliada pela ponte cais, situada no Farol das Lagostas, em Cacuaco, a companhia tem conseguido encaixar uma média que ronda entre três a cinco milhões de dólares/ano.

A ponte cais, que já existe há 35 anos, é uma infra-estrutura metálica que facilita a importação de matérias-primas e exportação do clinquer. Possibilita também o embarque e desembarque de mercadorias dos navios.

A empresa emprega 500 trabalhadores e conta com a mão-de-obra de empresas que prestam serviço à Nova Cimangola.

Além da Cimangola, no país há as fábricas da CIF (China International Fund), situada na localidade de Bom Jesus (Luanda), Fábrica de Cimento do Kwanza Sul (FCKS), Secil Lobito e a Cimenfort, instaladas em Benguela.

Segundo o site da Associação da Indústria Cimenteira de Angola (AICA), a CIF está com uma capacidade instalada de três milhões 600 mil ton/ano de cimento, a Cimenfort um milhão 400 mil ton/ano, igual quantidade para FCKS, enquanto a Secil 260 mil toneladas.

A produção média anual das cinco cimenteiras ronda os oito milhões e 460 mil toneladas de cimento, que atende uma procura de quase seis milhões de ton/ano.

A par do cimento, o clinquer é o outro produto fabricado pela indústria cimenteira nacional, cuja produção anual é de seis milhões e 450 mil toneladas.

A CIF, Nova Cimangola e FCKS são as fábricas integrais de produção de clinquer e cimento, enquanto a Cimenfort e Secil são moageiras que se dedicam exclusivamente à moagem do clinquer com materiais adicionais resultando o cimento.

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