Fellini: o cineasta (quase) sem Óscares

Entre os muitos prémios da sua carreira, Federico Fellini nunca obteve um Óscar competitivo; em 1993, ano do seu falecimento, a Academia de Hollywood atribuiulhe um prémio honorário

POR: Diário de Notícias

Se os homens não se medem aos palmos, os cineastas também não necessitam dos Óscares da Academia de Hollywood para demonstrar o seu talento. Em qualquer caso, convenhamos que uma estatueta dourada atribuída pelos membros da mais poderosa indústria cinematográfica do mundo não é coisa para desprezar… Que o diga Federico Fellini. Na verdade, o cineasta de Oito e Meio nunca ganhou um Óscar. E neste caso importa sublinhar a pertinência do verbo “ganhar”. Isto porque ele recebeu, de facto, um prémio honorário, a 29 de Março de 1993, na companhia de Sophia Loren e Marcello Mastroianni (Felllini viria a falecer cerca de seis meses mais tarde, a 31 de Outubro, contava 73 anos).

O certo é que, apesar do enorme impacto da sua obra nos EUA, e também do prestígio angariado junto dos membros da Academia, Fellini nunca recebeu um qualquer Óscar competitivo. E não se pode dizer que esteja mal acompanhado. Alfred Hitchcock, um daqueles nomes celebrado por espectadores de todas as geografias e culturas, também nunca ganhou uma estatueta dourada. Howard Hawks, mestre de um género tão popular como o “western”, idem, aspas (ambos receberam também prémios honorários). No caso de Fellini, oportunidades não faltaram. Afinal de contas, ele acumulou nada mais nada menos que 12 nomeações, começando, aliás, com filmes de outro realizador.

Assim, nos Óscares atribuídos em 1947 e 1950, foi nomeado na categoria de melhor argumento através de títulos de Roberto Rossellini – Roma, Cidade Aberta e Paisa/ Libertação, respectivamente, duas referências emblemáticas do neorealismo italiano. Por três vezes, conseguiu mesmo duas nomeações com o mesmo filme. Aconteceu com A Doce Vida (1960), Oito e Meio (1963) e Amarcord (1973) – qualquer deles levou o seu nome a surgir na lista dos candidatos a Óscares de argumento e realização. O insólito desta situação decorre do facto de Fellini ser uma figura lendária da própria história dos Óscares. Porquê? Porque o facto de nunca ter recebido um prémio competitivo individual não o impede de ser detentor de um recorde muito especial: Fellini dirigiu quatro títulos vencedores do Óscar de melhor filme estrangeiro – A Estrada (1954), As Noites de Cabíria (1957), Oito e Meio e Amarcord -, número até agora ainda não igualado por nenhum outro cineasta. Isso não impediu que Fellini recebesse, pessoalmente, tais Óscares.

De qualquer modo, formalmente, de acordo com as regras da Academia, o prémio de melhor filme estrangeiro (que este ano passará a designar-se “melhor filme internacional”) não é atribuído ao respectivo realizador, mas sim ao país produtor. Curiosamente, até 2014, a estatueta desta categoria recebia apenas duas inscrições: o título do filme e o país; só a partir dessa data passou a ser acrescentado o nome do realizador. A “liderança” de Fellini na contabilidade dos filmes estrangeiros reflete, também, o domínio da Itália nesta categoria. A França continua a ser o país mais vezes candidato, com um total de 40 nomeações, contra 31 da Itália. O certo é que a Itália já ganhou 14 vezes, contra 12 da França. Este ano, os franceses voltam a estar nomeados (com Os Miseráveis, de Ladj Ly); os italianos, pelo sexto ano consecutivo, não chegaram às nomeações.

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