Tem política, é normal

Começa a dar-me alguma graça ouvir uns quantos voluntariosos a tentar explicar aos angolanos que não há política no percurso da luta contra a corrupção, que tudo o que se passa é desinfestação judicial apenas. Esforço inglório. Pelo menos agora. Mas são os mesmos que não hesitam em rotular de antipatriótico quem não alinhe no linchamento público de certas figuras, são os mesmos que “assassinam” como “eduardista” quem disser que o actual caminho pode não ser o mais correcto. Contudo, não mais é possível a “despolitização” do processo, pela forma como foram feitos os primeiros pronunciamentos, pela inevitabilidade das consequências políticas e porque o povo já assumiu que está a assistir à uma luta pelo poder entre o lado eduardista e o lado lourencista, mais do que entre o Estado e os “corruptos”. Na rua, nas canções que emergem da juventude, nas redes sociais, a ideia é de que há uma luta entre “eles”. Para o povo, isso é política. O desfecho de tudo isso vai pesar na hora do voto, mesmo que não seja esta a intenção. Até a Oposição se está a meter. Se quiserem descontaminar politicamente o que se passa, os políticos que passem a ter mais cuidado nos seus pronunciamentos, os analistas de plantão que deixem de se substituir aos tribunais e de condenar quem ainda não foi julgado e de endeusar quem ainda não o merece. E talvez nem o queira. Neste caso, despolitizar significa manter a serenidade e deixar correr as coisas, vigiando o desempenho das instituições em defesa do Estado e dos cidadãos. Em defesa de uma justiça verdadeira.

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