Yuri Quixina:“Não há países que se desenvolveram através de preços decretados e vigiados”

Continua o conflito entre agentes económicos e autoridades fiscalizadoras em torno da subida dos preços. A crise da subida dos preços e o XI Conselho Consultivo das Finanças mereceram destaque nesta edição do Economia Real. Acompanhe a análise do professor de Macroeconomia, Yuri Quixina

Continua a divergência entre o INADEC e as instituições de ensino que ajustaram os preços. Colégios e universidade vão responder em tribunal. O processo parece irreversível…

Sim. Quando um país é composto por muitas instituições públicas burocratas e que não percebem de economia, esse é o caminho. Não há países que se desenvolveram através de preços decretados e vigiados. Ao contrário, leva os países ao buraco. A pergunta que se coloca é: qual é o efeito ou a razão de ser do aumento da taxa de juro, pelo banco central num cenário de inflação, cujo preço é criado por decreto? Agora, e se os tribunais julgarem negativamente contra as escolas, é porque não tiveram em conta as leis do mercado. E o INE publicou o índice de preço com várias oscilações, entre Novembro e Dezembro, comparado com igual período do ano passado.Estamos a viver uma recessão económica e a tendência é a oscilação dos preços. Dados estatísticos do INE indicam um movimento descendente da inflação entre 2018 e 2019. Foi 18% em 2019, agora está 16,90%. Há dois elementos a ter em conta. Em Dezembro as pessoas tendem a consumir mais, apesar da crise. É o hábito do consumismo. As classes de bebidas e alimentação concorreram para isso.

O Ministério das Finanças realizou o seu XI Conselho Consultivo, onde você foi prelector. “A maré tende a mudar – uma nova ordem económica angolana”, foi o seu tema. Há mudanças?

A maré tende a mudar no discurso. Hoje já se fala do liberalismo, no passado tiravam-me o microfone, era visto como leão e as pessoas fugiam às minhas abordagens.

Que discursos você cita como exemplos que indiciam essa mudança?

Primeiro, já se afirma que a culpa da crise não é o petróleo. Já se fala da necessidade de um Estado mínimo para sairmos da crise e privatizações. Quando falava de privatização eu era escorraçado. Já se fala que o mercado é que deve determinar os preços, apesar de estar só no discurso, porque o comportamento do INADEC não tem sentido. Já se fala do capitalismo de compadrio e que as empresas privadas devem ser de facto privadas. Há abertura ao comércio externo, a conta capita está a abrir e há tendência da liberalização do mercado de câmbio. Isso faz-me crer que a maré tende a mudar, porque os discursos estão alinhados nessa perspectiva.

Mas do discurso à prática a distância ainda é grande!

Por isso disse tende a mudar, ainda não mudou. Falta a prática, de facto. Fiz referência sobre como chegamos até aqui do ponto de vista da situação…

E como foi que chegámos?

Cometemos erros na mudança de modelo. Saímos de uma economia socialista para a de mercado, mas não entramos de corpo e alma. Ficaram alguns sintomas. A sequela do socialismo ficou connosco. Nos primeiros 10 anos do novo modelo, por exemplo, houve muitas inconsistências de políticas e liderança económica.

Como você argumenta isso?

Em 10 anos tivemos nove ministros das Finanças e cinco governadores do Banco Nacional de Angola. E as consequências foram inconsistências de política e liderança económica. Em 10 anos aplicamos 10 programas económicos e continuamos com os mesmos problemas: PRODESI, PIIM, PAC, PAPE. São muitos P’s. Também falei das burocracias. Não avaliámos os indicadores, a eficiência e a eficácias das políticas públicas. E isso faz com que não consigamos atingir grandes resultados.

O lema do evento foi “Consolidar para prosperar”. Em que pilares essa estratégia deve assentar para a sua materialização?

A consolidação só traz prosperidade quando visa o crescimento económico e cria espaço para os empreendedores e as famílias fazerem negócio. O Estado deve viver dentro das suas posses. Não pode comer de 20, quando só produz 10.

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