Pelo menos fica indignada contra o destino das crianças feiticeiras!

Por: Ricardo Vita

Ó África, terra usurpada, porque é que tu ainda me deixas triste? E, parafraseando Césaire, quando é que deixarás de ser o brinquedo sombrio no carnaval dos outros ou no campo dos outros o espantalho obsoleto? Ó minha África, apesar das minhas esperanças, persistentes e voluntárias, vejo que ainda se quer ir além, para te apunhalar, como sempre; e tocou-se o teu coração desta vez, para te quebrar definitivamente!

Quer-se destruir a tua maior riqueza, o teu futuro, o Absoluto: teus filhos! Agora se responsabiliza os teus filhos por todos os males que afligem as suas famílias; doença, morte, divórcio, falta de dinheiro. São acusados de feitiçaria ! E, em desespero e sob tortura, muitos aceitam que são mesmo feiticeiros, porque são manipulados! Tem-se como alvo órfãos, deficientes, albinos. Caídos na armadilha, não têm escolha a não ser aceitar a acusação e as suas consequências. São maltratados, estigmatizados e marginalizados.

Depois são rejeitados e banidos da família. Outros são mortos. Sim, mortos, jogados aos crocodilos, ó África! É a maneira de explicar a pobreza, o conflito entre tradição e modernidade. É a disfunção que foi criada nas famílias e a perturbação nas relações entre mais-velhos e mais-novos, é o profundo conflito entre as crenças dos antepassados e os deuses estrangeiros. Na verdade, é o reflexo do transplante que nunca pegou. E não se fala do mercado suculento que representa essa miséria e ignorância para essas igrejas, ó África! Quer-se destruir a tua alma, o teu ser. Bem, sim, porque, sobrecarregadas pelo desemprego, atingidas pelo luto ou simplesmente vivendo numa pobreza insuportável, as famílias buscam um bode expiatório para os seus infortúnios e o encontram nas crianças a quem acusam de todos os seus males.

Os « pastores », por ganância, designam uma criança indefesa como portadora de poderes demoníacos e fazem dela uma vítima expiatória a quem se apressam em exorcizar exigindo dos pais presentes importantes. A religiosidade, portanto, tem precedência sobre o bom senso e as crianças, deixadas para cuidar de si mesmas, encontram-se nas ruas, marginalizadas e excluídas da população. As meninas prostituem-se e os meninos integram o banditismo. Onde estão as leis e os juízes?

Ó África, vês que a tua destruição continua! Por isso, tomo esta passagem de Oseias 4: 6, do livro que o opressor da Europa te deixou possuir, que diz: « O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da Lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos ». Sim, está escrito no livro desse opressor, aquele que nomeou o que tu defines hoje como feitiçaria, aproveitando a miséria que foi criada em ti para esvaziar a tua substância completamente. É essa grande confusão que foi criada nas tuas leis e tradições que te leva a uma perda desastrosa. E foi a mesma confusão que afirmou que o animismo era mau. Sabes o que foi – e que permanece – do interesse dos opressores e que lentamente te mata definindo-te assim? Não divulgaram, positivamente, que o animismo, que vem do latim, animus, e que significa « espírito » ou « alma », foi o que guiou os antepassados e iniciou toda a humanidade ao conhecimento de Deus. Uma ciência! Porque é que não disseram que era a crença nessa força vital que animava os seres vivos, objectos, elementos naturais, como pedras, vento ou génios protectores?

E escolheram não dizer que, na tua cosmogonia, essas almas ou espíritos, essas manifestações das divindades mortas ou animais, podem actuar no mundo tangível, de uma maneira benéfica ou não. Pois é a tua essência, a tua força que eles sempre temeram e que os obceca até querer destruir-te. Porque o que é um povo, uma nação, uma civilização sem espiritualidade própria? Nada. Mas a tua era a religião da vida e não da morte, tudo tinha vida em ti.

Absolutamente tudo. Os chefes escolhidos pelo povo governavam cada aldeia com sabedoria e a medicina era feita pela mais alta ciência das plantas. Ó África, terra da ciência que emanava de sábios e antepassados que vigiavam a vida, porque é que tu ainda deixas a morte semear-se em ti, no teu coração, ó África? Eles sabem que a tua essência permanece ainda profunda nos teus filhos e a manipulam confrontando-a com as suas crenças, porque sabem que a ignorância e a miséria funcionarão a seu favor! Então as crianças são queimadas para exorcizar os « maus espíritos » suspeitos nelas? E tudo isso é feito com a cumplicidade de iluminados que dizem ouvir a voz de um deus? É essa voz que lhes diz que esta ou aquela criança age à noite de maneira invisível, transformando-se para deixar o envelope do seu corpo, a fim de prejudicar essa ou aquela pessoa, devorando a sua substância vital? Mas que deuses tu deixas falar com esses bons profetas, ó África?

Não podem ser os dos teus antepassados, sábios e pacíficos! Provavelmente são os deuses vingativos, os deuses que usam o medo, a violência e a morte para existir! « Se o conceito de Deus é válido ou útil, só pode ser para nos tornar maiores, mais livres e mais amorosos. Se Deus não pode fazer isso, é hora de nos livrarmos dele».

É James Baldwin e tem razão. Porque a tradução de termos locais que designam realidades locais por « feitiçaria », fortemente influenciada pela história europeia, é inadequada e causa confusão. As igrejas dos opressores sempre disseram que as tuas tradições eram apenas cultos prestados a demónios e definem as maldições e os vínculos com os espíritos. Ainda acreditas nos opressores, realmente? Merecem esse poder? Como podes deixá-los acusar uma criança de feitiçaria, porque nasceu prematuro ou de parto pélvico? Uma criança traz « azar » quando nasce com lábio leporino?

Ah, essas igrejas pedem que ames o teu sofrimento, como Jó, que aceites a tua ruína, é prova de amor aos seus deuses, eles amam os pobres! Ó África, minha querida, não és pobre, estás apenas no chão, recompõe-se! E quando é que farás a tua revolução espiritual, teu único e verdadeiro acto de liberdade, que envolverá todas as outras? Ó gloriosa África, os teus filhos crescidos agora são cristãos ou muçulmanos. Que assim seja.

Os cristãos até acreditam que o Cristo veio especialmente para eles. Que assim seja. Mas daí deixá-los matar os teus filhos, o teu futuro? Não! É o teu futuro que estão a maltratar e matar, é a tua morte que estão a preparar, proteje-te! Ou queres ainda continuar a ser a terra de oportunidades para aves de rapina de todas as espécies? Abre um tribunal contra esses pastores iluminados que acusam os teus filhos de feitiçaria, contra os seus pais também, são cúmplices, são todos eles criminosos!

E mesmo que essas crianças fossem feiticeiras, é com a tua sabedoria que a situação deve ser tratada! Portanto, cabe a ti, somente a ti amada África, a responsabilidade de questionar o teu amor por essas crianças cujo futuro está confiscado. E, falhando em protegê-los (em proteger-te), em fazer respeitar os seus direitos mais elementares (as tuas Leis), querida África amada, pelo menos fica indignada profundamente! *

é pan-africanista, afro-optimista radicado em Paris, França. É colunista do diário Folha de São Paulo (Brasil), do diário Público (Portugal) e do diário Libération (França). É cofundador e vice-presidente do instituto République et Diversité que promove a diversidade em França e é empresário.

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