Falta de “vontade política” pode levar Benguela ao descalabro

O alerta é de vários segmentos sociais e políticos, que deploram o quadro social de Benguela dos últimos 2 anos, e destacam que a acção mais visível de rui Falcão à frente dos destinos da província, desde 2017, evidencia-se apenas no sector energético

Constantino Eduardo, em Benguela

O governador provincial de Benguela, Rui Falcão, está a ser alvo de uma onda de críticas devido ao que determinados segmentos sociais, políticos e não só chamam de “ingovernabilidade” da província, com o saneamento básico e as vias de acesso, para citar apenas estes, a moldarem o gráfico das reclamações de munícipes. O adjectivo “ingovernabilidade” foi introduzido no léxico local por Dom Belmiro Tchissenguete, bispo da diocese de Cabinda. Numa das suas passagens pelo município do Lobito, em 2019, depois de ter ficado muito tempo sem vir à província, o prelado católico deplorava o quadro caótico das vias de acesso da cidade dos Flamingos, tendo, por essa razão, considerado que a cidade estaria votada à “ingovernabilidade”.

De lá para cá, o termo tem sido bastante utilizado quando se quer referir à alegada inação do Executivo de Rui Falcão. Martins Domingos, membro da sociedade civil, fala em estagnação da província e manifesta-se preocupado com o ambiente em que os benguelenses actualmente vivem. “Estamos a inalar muita poeira. Um autêntico atentado à saúde pública”, disse, recordando, entretanto, que há 3 /4 anos Benguela já foi uma das cidades mais limpas de Angola, mas hoje o asfalto se confunde com a areia. Saliente-se que a justificação do governador, face à reclamações/ críticas, tem passado, necessariamente, pela falta de recursos financeiros para executar projectos, a ponto de afirmar que executa obras “no limite das suas capacidades”.

A UNITA, por via do seu secretário, Abílio Kaunda, desconfia que as autoridades locais não tenham noção do quanto Benguela, ultimamente, vai caindo aos pedaços, daí que deverá, depois de se proceder à abertura do ano político, apresentar um plano detalhado sobre a província e entregá-lo ao governador provincial, para a tomada de decisão. O relatório do maior partido da Oposição angolana juntar-se-á a um outro já elaborado pela CASACE, que resultou do périplo que o secretário Zeferino Kuvíngua efectuou aos 10 municípios.

Estradas esburacadas

As vias secundárias e terciárias esburacadas, valas de drenagens assoreadas, fundamentalmente nos municípios de Benguela e Lobito, constituem um cenário desagradável para os munícipes. De entre as estradas que carecem de intervenção, automobilistas chamam a atenção para o governo priorizar a famosa rua da Max, Serpa Pinto, de que a directora do Gabinete Provincial dos Serviços Técnicos e Infra-estruturas, Jandira Ribeiro, diz que padece de erros de engenharia e que, por isso, carece de uma “intervenção profunda”.

Antigos moradores dos bairros da Calomanga e Cotel, bairros atravessados pela via, esclareceram a OPAÍS que, no tempo colonial, havia canais de escoamento de água, mas foram todas tapados por aqueles a quem chamam de “engenheiros iluminados”, daí justificar-se o caos. Face ao cenário, a responsável do sector técnico e infra-estruturas tranquiliza e argumenta que o Governo Central acautelou a questão da reabilitação de algumas estradas descritas como emergenciais num dos fundos do Ministério das Obras Públicas.

Valas de drenagem assoreadas

Munícipes no Lobito estão preocupados com o assoreamento de algumas valas que nas cheias de Março de 2015 ceifaram a vida a dezenas de cidadãos e falam da necessidade de se trabalhar com celeridade. O OPAÍS sabe que estão a ser limpas algumas valas de drenagem na cidade dos Flamingos. Recentemente, o ministro das Obras Públicas, Manuel Tavares de Almeida, afirmou que o Governo está a trabalhar no sentido de que os mais de 40 quilómetros de valas, só no Lobito, sejam desassoreados o mais rapidamente possível. Uma outra preocupação prende-se com a vala do Coringe, em Benguela, apinhada de lixo. A vala atravessa os bairros da Kanequetela, Caponte City e Goa e muitos dos moradores, na falta de uma barca para deposição de lixo, utilizam a vala como refúgio. Há tempos, segundo constatação deste jornal, homens e máquinas tinham sido mobilizados para a limpeza no Coringe, mas o trabalho ficou inacabado.

Envolvimento empresarial

Um antigo governante, que não se quis identificar, acredita que o problema de Benguela pode ser resolvido com o envolvimento da classe empresarial. Contrariamente ao que Isaac dos Anjos fazia, a nossa fonte sustenta que Rui Falcão anda muito distante dos empresários, embora reconheça a descapitalização de alguns deles, decorrente da dívida que o Estado tem com eles e não paga.

Acções aplaudidas

Se, por um lado, a sociedade se manifesta apreensiva com o quadro do saneamento básico, por outro, aplaude os investimentos feitos, fundamentalmente no sector da energia com ligação ao sistema norte. Hoje, justifica a senhora Maria Dulce, o fornecimento de energia melhorou consideravelmente, embora considere igualmente imperioso que se invista em iluminação pública. Para satisfação de dona Dulce, o governador Rui Falcão revela que o objectivo é, até 2022, aumentar a capacidade de produção de energia “e haver 250 megawatts”.

Entretanto, um membro do Governo Provincial, destacado no GEPE, explicou, sob anonimato, que, para o exercício económico 2020, o OGE destinado a Benguela está estimado em mais de 100 mil milhões de kwanzas, quando em 2019 estava cifrado em 90 mil milhões. De acordo com a fonte, este aumento não traduziu o crescimento Plano do Investimento Público (PIP), na medida em que uma boa parte do bolo orçamental se destina ao pagamento de salários, fruto do aumento do pessoal da função pública. “O que vai fazer é dar continuidade aos projectos dos exercícios passados”, esclarece.

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