Patriotismo e inclusão em Macau

Por: JOSÉ CARLOS MATIAS

Osentimento patriótico é, em si, algo de natural e genuíno em Macau. É-o em grande medida por motivos orgânicos e pragmáticos. Não está nem nunca esteve em dúvida para a esmagadora maioria da sociedade local a identifi cação e pertença à China. Estando tão sedimentada essa identidade e existindo os instrumentos necessários para assegurar a soberania e unidade nacional em Macau, a omnipresença de um certo discurso patriótico com laivos nacionalistas surge não apenas como manifestamente exagerado, mas também, se não for temperado, comporta vários riscos de um
caminho rumo à intolerância e xenofobia.

O contexto é bem sabido: crise em Hong Kong, ‘guerra comercial’ lançada pelos Estados Unidos e celebração do 70 anos da RPC e 20 da RAEM. O problema é que sendo tão acentuada e estreita a narrativa, ela pode tornar-se Alfa e Omega do discurso e acção política, empobrecendo, afunilando e condicionando o debate público. É isso que alguns dirigentes da Administração, deputados e “académicos” têm feito. Na Assembleia Legislativa – à semelhança do que aconteceu no passado – (re) emergem as vozes oportunistas e acríticas de “patriotas de bolso”, mais papistas que o papa, alguns dos quais empresários cujo sentido de dever para com a pátria, a cidade e o povo é no mínimo questionável. Alguns deles estiveram presentes na recepção oferecida pelo Gabinete de Ligação do Governo Central na passada Sexta-feira por ocasião do Ano Novo Lunar.

Espera-se que tenham prestado a devida atenção ao importante discurso do director do Gabinete até ao fi m. “Precisamos de criar um ambiente social de maior inclusão e abertura”, afi rmou Fu Ziying, ao mesmo tempo que se referia ao belo e sábio provérbio chinês – “O mar é grandioso por receber todos os rios”. Mas Fu foi mais longe. Sublinhou que, mantendo sempre “a pátria no coração, devemos ter uma visão global para tornar Macau numa ponte importante de abertura bi-direcional do país”. Isto passa por “promover activamente o intercâmbio cultural internacional para elevar o prestígio e vantagem de Macau como cidade internacional onde as comunidades de diferentes origens convivem no respeito mútuo e apoio recíproco, onde as diversas culturas coexistem com harmonia”.

Precisamos não apenas de mais mensagens como esta para limpar o ar, mas também de práticas e políticas bem mais inclusivas. Começando pela forma como a cidade lida com os migrantes – trabalhadores não-residentes – que desempenham um papel social e económico essencial. É da mais elementar justiça reforçar os seus direitos, nomeadamente no que diz respeito a serviços de saúde e segurança social. Por outro lado, há que fortalecer o estatuto internacional de Macau através de uma maior abertura a pessoas e ideias do exterior que tanto enriquecem o desenvolvimento local e nacional. Ser patriota também é isso. Patriotismo sem inclusão é oco e desumano.

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