Estradas loucas

Guiar um automóvel em Luanda é sempre como estar dentro de um jogo de vídeo, há que esquivar- se de todo o tipo de obstáculos e ataques. Nisto tudo, de cada vez que o cidadão termina o dia sem um incidente, o Estado deveria compensá-lo de alguma forma, há algo de heróico em sair-se “ileso”, pelo menos fisicamente, porque psicologicamente os danos são constantes, inevitáveis e permanentes. Um dia de condução em Luanda pressupõe desviar-se de pelo menos duas dezenas de buracos na estrada, ter de dar passagem nos cruzamentos a pelo menos uma dezena de automóveis que se apresentam fora de mão; enervar-se por não perceber por que é que alguém acelera para obstruir o trânsito, mesmo quando não há um número de carros que o justifique. E não é tudo. Há que desviar-se dos cones, há que parar umas três vezes por causa dos constantes postos de Polícia; soma-se os montículos de areia acumulados pelas empresas de saneamento, e, ainda, quem nunca o fez que o diga, insultar em voz alta ou mesmo em silêncio, mas insultar alguém porque, por muita atenção que se tenha somos sempre apanhados por um buraco ou por um quebramolas. Mas é necessário ter muita habilidade, porque também se tem de adivinhar os limites da faixa em que se circula, aqui as faixas são elásticas, engordam e emagrecem consoante dá na gana do taxista circular mais à direita ou mais à esquerda. Então intuímos, e algumas vezes circulamos à direita de quem vem em sentido contrário. E se houver um choque, bem, discute-se tudo, menos os limites da faixa de rodagem, não existem. Digamos que há quem saia para a rua com a ideia de “a estrada é toda nossa”. Pena que ninguém ponha um game over nisto tudo.

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