Tiago Dias, o antigo vicegovernador do BNA que será ouvido hoje no Caso 500 milhões

Há 23 anos que Manuel António Tiago Dias, o declarante que hoje será ouvido na Câmara de Crimes Comuns do Tribunal Supremo no âmbito do caso 500 milhões de dólares, faz parte do quadro de funcionários do Banco Nacional de Angola

Tiago Dias, como é tratado, ingressou no BNA em 1997, como economista no Departamento de Estudos e Estatística, depois de ter regressado de França, onde fez a licenciatura em Ciências Económicas, opção Sistemas Produtivos e Comércio Internacional, e o mestrado na mesma área, mas tendo como opção Terceiro Mundo. Cerca de três anos depois ascendeu a chefe da divisão de Estudos do referido departamento, função que desempenhou por cinco anos. A partir daí começou uma escalada que o levou a um lugar no top da hierarquia do banco central, tendo antes sido subdirector do Departamento de Estudos e Estatística (durante seis anos), director do Departamento de Estudos e Estatística (durante um ano) e director do Departamento de Estatística (durante cinco anos). Em 2016, com a entrada do jurista Valter Filipe na direcção do BNA, foi catapultado a vice-governador.

É justamente nessa condição que deverá comparecer hoje no Tribunal Supremo a fim de contribuir para a descoberta da verdade material em torno de uma transferência bancária de 500 milhões de dólares da conta dessa instituição, domiciliada no banco Standard Chartered de Londres, para a conta da empresa Perfectbit domiciliada no banco HSBC, também em Londres. Além do ex-governador, este processo tem como arguidos António Samalia Bule Manuel (antigo director do Departamento de Operação do BNA), José Filomeno de Sousa dos Santos “Zenu” (ex-presidente do Conselho de Administração do Fundo Soberano de Angola) e Jorge Gaudens Pontes Sebastião (empresário). Zenu e o seu amigo de longa data Jorge Gaudens estão a ser julgados pelos crimes de burla por defraudação, branqueamento de capitais e tráfico de influência. Ao passo que António Samalia Bule e Walter Filipe pelos crimes de burla por defraudação, branqueamento de capitais e peculato.

Factos a esclarecer com o declarante

Conforme noticiou OPAÍS na edição de Sexta-feira última, Tiago Dias tornou-se uma das peças fundamentais para a descoberta da verdade material neste caso por ter emitido, a 10 de Agosto de 2017, um parecer desfavorável a contratação da empresa Mais Financial Services, com a qual o BNA havia celebrado dois contratos orçados em milhares de dólares e euros.

O primeiro, denominado de Contrato de Consultoria TécnicoFinanceira, foi rubricado pelo antigo homem forte do banco central, Valter Filipe, e Jorge Gaudens Pontes Sebastião, proprietário da aludida empresa, a 3 de Julho de 2017. Neste contrato, a Mais Financial Services comprometia-se a elaborar um estudo sobre a economia angolana e sobre as medidas monetárias a adoptar pelo BNA, nomeadamente a constituição de um Fundo de Reserva Estratégica de Divisas para o mesmo e um Fundo de Investimento Privado de Gestão de Activos para a promoção de projectos de investimentos públicos, de acordo com a acusação. Em contrapartida, o BNA pagaria 16 milhões e 200 mil euros, pelo primeiro, e 33 milhões e 500 mil euros pelo segundo.

Nesta conformidade, no mesmo dia em que assinaram o contrato, a Mais Financial Services emitiu duas facturas, com os números 2017MFS/01 e 02, sendo uma com o valor de 2 milhões e 430 mil euros e a outra com o valor de 5 milhões e 25 mil euros. Posteriormente, a 27 de Julho do mesmo ano, emitiu outras duas facturas, uma com o valor de 5 milhões e 670 mil euros e a outra com o valor de 11 milhões e 725 mil euros.

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