Carta do leitor: Estamos apavorados

POR: Manuel Ndundu

Caro director é com um enorme prazer que escrevo para ti, e creio que o que tenho a dizer merecerá a devida atenção. O cenário aqui na China parece nos filmes de terror de Hollywood, onde ninguém quer tocar em ninguém, só vejo gente com máscaras, as ruas estão vazias, a cidade está deserta, só se ouve o barulho de pássaros e o vento que passeia no jardim da dinastia Song e faz as árvores bailarem num ritmo hesitante dos que há dias convivem com o medo de a qualquer momento serem infectados, não há pessoas nas estações de comboio, nem há carros na estrada, e há quem chegue a confundir a estrada com uma pista de atletismo, custa-me crer que estamos em plena nação mais populosa do mundo. Há três dias que não saio de casa, nos supermercados já não há produtos da cesta básica suficientes para alimentar a população que já está sendo consumida pelo medo. Este é o ambiente em Pequim, mas estou bastante preocupado com os meus compatriotas que estão em Wuhan, a cidade mais infectada com o vírus corona, estão literalmente em quarentena, e alguns estão sem mantimentos, a situação está caótica. A cada dia que passa há novos casos, o que significa que ninguém está seguro. A situação está alarmante, infelizmente, nem tudo é divulgado nos media locais. A comunidade angolana residente na China está revoltada devido ao pronunciamento tardio da embaixada angolana. Até agora, nenhuma medida concreta foi tomada para prestar apoio, principalmente aos estudantes que neste momento clamam por alimentos. E com o regresso das aulas adiado, alguns estudantes pedem a ajuda da embaixada para serem evacuados para outras cidades que não estão em perigo, ou um possível regresso ao país. As universidades desaconselham os estudantes que vivem nos campus a frequentar locais públicos. E recomendam aos que viajaram para não regressarem à China sem a autorização da universidade. O coronavírus já infectou mais de 2.700 pessoas (segundo os dados divulgados pelos media) inclusive profissionais de saúde. O aumento nos casos antes do Ano Novo Lunar levantou temores de que o vírus pudesse se espalhar ainda mais, já que nesta época do ano centenas de milhões de pessoas viajam pelo país. Não existem tratamentos específicos como vacinas para os coronavírus, mas muitos sintomas causados pelos vírus podem ser tratados. Existem os chamados super espalhadores, pessoas na fase mais virulenta da infecção e com maior probabilidade de espalhar a doença para outras pessoas. Provavelmente há mais infectados do que os números que as autoridades chinesas estão a divulgar. Longe das famílias, numa cidade que agora parece inabitada, confesso que estamos apavorados, pois a maneira como o vírus se propaga dá a impressão de que para ser infectado é só uma questão de tempo.

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