Líder da UNITA impõe regras aos deputados para intervirem no Parlamento

Desde o pretérito dia 23 deste mês, as intervenções dos deputados do Grupo Parlamentar da UNITA passaram a ser primeiro aprovadas pela direcção do partido, antes de serem apresentadas na Assembleia Nacional, como medida de precaução a eventuais “pronunciamentos descoordenados”

A decisão saiu de uma reunião do Grupo Parlamentar realizada no dia 21 do mês em curso, em Viana, orientada pelo presidente deste partido, Adalberto Costa Júnior, durante a qual ficou decidido que os deputados devem remeter por escrito as suas intervenções, a fim de passarem pelo crivo para ser homologadas. A ideia, de iniciativa do próprio líder do partido, que é também deputado, segundo fonte deste jornal, surpreendeu os participantes neste encontro, mas Adalberto Costa Júnior justificou ser necessário haver uma sincronização de todas intervenções para o público acompanhar o desempenho da bancada parlamentar durante as sessões do parlamento, que começaram a ser transmitidas em directo pela Televisão Pública de Angola (TPA) e pela Rádio Nacional de Angola (RNA).

De acordo com a fonte, que participou  na reunião, a ideia não foi acolhida com agrado, por atentar contra a liberdade de expressão no seio do próprio partido, que alega ser uma organização política cujo estandarte é a democracia que consagra valores como a liberdade de se expressar livremente. Apesar de não haver um pronunciamento contra a decisão, há contestações em surdina de vários deputados, mas impedidos de o fazerem abertamente, sob pena de incorrerem em acto de desobediência, de acordo com os estatutos do partido, e o líder do partido é apontado como sendo um dirigente implacável nas suas decisões. A fonte reforçou que nem os deputados considerados “pesos pesados” do Grupo Parlamentar e figuras influentes do Comité Permanente da Comissão Política (CPCP), órgão deliberativo do partido, questionaram a medida do presidente Adalberto Costa Júnior.

Entretanto, apesar de a medida estar já vigente, a sua implementação poderá não vingar, sendo que há um grupo de 18 deputados que pretende contestar a decisão do presidente, em carta a remeter, nos próximos dias, ao presidente do partido, através do Grupo Parlamentar da UNITA, agora liderado por Liberty Chyiaka. Neste número de parlamentares, há os que defendem levar a questão a uma reunião tão logo o presidente da UNITA regresse da Indonésia, onde se encontra em missão de serviço, acompanhado do secretário para as relações exteriores e comunidades, Rafael Massanga Savimbi. A posição tomada por Adalberto Costa Júnior abrange inclusive os três deputados independentes da bancada, Raul Tati, David Mendes e Sediangani Mbimbi.

Aliás, este último deixou de ser independente e filiou-se na UNITA, partido que o acolheu quando foi afastado do Partido Democrático Para o Progresso e Aliança Nacional de Angola(PDP-ANA), por supostas intrigas internas do actual líder, Simão Makazu. A entrada de Sediangani Mbimbi na UNITA era apenas uma questão de tempo ou estratégia, pois há muito que recebera o convite, por influência do ex-vice-presidente deste partido, Ernesto Mulato, de que é sobrinho, apesar de ter sido convidado por Isaías Samakuva, antigo líder da UNITA.

REAÇÃO

Entretanto , uma fonte da direcção da UNITA informou a OPAÍS que a medida não se trata de censura, mas para alinhar os discursos dos deputados quando pretenderem falar sobre determinados matérias, para se evitar distorções, como já aconteceu algumas vezes, explicou. A mesma fonte tranquilizou dizendo que os deputados terão as suas intervenções como sempre, sem quaisquer constrangimentos, realçando que a UNITA sempre se bateu-se pela liberdade de expressão.

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