Yuri Quixina: “O Estado elefante ou gigante é uma arma de destruição maciça de emprego”

O professor de Macroeconomia, Yuri Quixina, afirma que a economia não vai crescer devido ao tamanho do Governo, que também dificulta a reforma. O especialista fez essas afirmações durante a análise económica semanal, no programa Economia Real da Rádio Mais

Ainda o dilema dos preços das propinas nas instituições de ensino. PGR, INADEC, Finanças e ANEP reuniram-se e concluíram que aumento só será feita mediante autorização do Ministério das Finanças. O que isso pode significar?

Significa que ainda estamos com as normas da economia que nos levaram à crise, onde há uma voz de comando que autoriza preços e que muitas vezes não entende a lei do mercado. Quem vigia preços deve, antes, perceber o seu sinónimo e vigiar também os custos. Mas os custos devem ser vigiados em toda parte onde ele ocorre, onde as escolas compram o material necessário.

Como avalia essa decisão?

A economia vai dar aula às autoridades, à PGR, porque os resultados serão visíveis. É uma decisão que acho política e populista, do que uma decisão de mercado.

Mas a decisão da PGR acautela que o aumento pode ser feito, mas mediante solicitação ao Ministério das Finanças. Essas instituições podem apresentar os argumentos?

Então vamos alterar também o sistema de ensino. Para aprovar um aluno também deve ser feito mediante autorização, para contratar um professor também vamos pedir autorização. Isso é de uma economia nem do socialismo. Estamos a falar do produto mais importante para aumentar o crescimento da economia. Escolaridade. Quanto maior for o nível de escolaridade, maior será o nível de desenvolvimento de um país. O ensino privado em nenhuma parte do mundo é barato.

Que consequência essa medida poder gerar?

De Janeiro de 2020 a 2022, o país só vai viver de política. Esquece economia, não vamos ter grandes resultados de economia, porque o foco será só política. O ano para organizar a nossa economia já passou. Foram os dois primeiros anos. Daqui para frente vamos acarinhar políticas económicas populistas que assinalam boa governação, visando as eleições. Mas repito: se daqui para frente as escolas não mexerem nos preços, muitas não vão sobreviver e quem vai sofrer é o povo e não o INADEC, pois esse vai continuar a receber os seus salários em função dos nossos impostos.

O BFA acredita que o país registe uma recuperação modesta este ano, na ordem de1,0%, ao passo que a OUNU estima uma recessão, com um crescimento negativo de 1%. Qual é a sua opinião?

Acho a ONU mais realista do que o gabinete de estudos económicos do BFA, por duas razões: o BFA perspectiva um crescimento abaixo de 1%, condicionado à estabilização e previsibilidade da situação cambial, que permita aos agentes económicos a recuperação de alguma confiança. E entende ainda que a produção petrolífera será influenciada pelo novo regime cambial e com os efeitos de confiança que gerou sobre os empresários. A ONU apresenta outra perspectiva. Estima que a economia venha a decrescer 1%, fruto de um baixo investimento que Angola vai fazer, derivado da fraca poupança. O elevado índice de desemprego é o outro argumento apresentado pela ONU.

E qual é a sua perspectiva perante essas duas previsões?

A melhor forma de prever o futuro é agir agora, porque o futuro é o somatório de vários agora. E agora estamos a fazer uma reforma atabalhoada. Estamos a gastar dinheiro em sectores que não relançam a actividade económica.

Pode citar?

Fazer dinheiro. Gastar USD 30 milhões para imprimir moeda até pode financiar o OGE, mas no  longo prazo não tem sustentabilidade. A dívida alta reduz o espaço de manobra e quando um país tem muita dívida cai na armadilha do aumento de impostos. Angola não tem como crescer porque o Estado é um elefante grande. O Estado elefante ou gigante é uma arma de destruição maciça de emprego.

Levantamento feito em 28 países, com 34 mil pessoas, mostra que 56% não confia no capitalismo, ‘na sua forma actual’, e conclui que ela faz “mais mal do que bem”. Com que sensação ficou quando leu isso?

Primeiro questionei-me sobre que tipo de capitalismo estão a falar. ‘O capitalismo como existe hoje’. Quem faz o questionário tem os seus interesses e pode fazer perguntas fechadas. Capitalismo é a livre iniciativa de o povo fazer a sua actividade económica. Só por fazer esse estudo já é capitalista, porque utilizou as ferramentas produzidas por um capitalista. As pessoas usam os bens do capitalista para falar mal do capitalismo. Agora, quando o Estado entra no capitalismo, se torna selvagem e é isso que confunde as pessoas. O capitalismo sofre mutações. Temos o capitalismo do Estado, de compadrio – que usa o dinheiro do Estado para fazer negócio. O mundo sem livre iniciativa não seria rico. Quase 3,7 biliões de pessoas estão a sair da pobreza, através do capitalismo.

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