Especialista defende a necessidade do rastreio precoce do autismo

Psicóloga e especialista em análise de comportamento aplicada ao autismo, Flávia Neves defende a necessidade do rastreio precoce dos sinais de Transtorno do Espectro Autista, sem negligenciálos, para melhor trabalhar no comportamento e inserção da criança. A não identificação rápida dos sinais tem dificultado a intervenção dos especialistas

Um mini-curso de dois dias está a ser ministrado, desde ontem, aos profissionais de saúde e da educação, a famílias e população em geral, com o objectivo de os dotar de ferramentas que lhes permitam o rastreio do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Flávia Neves, psicóloga e doutorada em análise de comportamento aplicada ao autismo, é a especialista convidada para dar este mini-curso, que defende ser importante, dados os registos de crianças que nascem com autismo. A cada 59 crianças nascidas, uma é autista, segundo as estatísticas mundiais. Por ser um transtorno muito prevalente, segundo aquela especialista, é urgente e necessária a consciencialização sobre as causas, os tratamentos para minimizar os sintomas, etc.

A análise de comportamento é importante, daí que, enquanto especialista em análise comportamental aplicada ao autismo, foi convidada para falar do rastreamento de sinais de risco à intervenção baseada em ABA (Applied Behavior Analysis, análise aplicada ao comportamento). “Se falarmos sobre este assunto com alguma frequência, se ensinarmos a sociedade como reagir, o que se deve fazer em caso de sinais de TEA (Transtorno do Espectro Autista), mais sensível fica o olhar dos pais, da família e doutras pessoas do meio em que a criança está inserida. São comportamentos que nós conseguimos identificar mesmo quando a criança ainda é bebé, pelo que não devemos esperar que ela tenha 6 ou 7 anos para ver que está com atraso de desenvolvimento”, defende Flávia Neves.

Ver o autismo não como uma doença

A questão da inserção destas crianças no sistema de ensino ainda é um problema no nosso país e, por isso, Flávia realça a importância da terapia baseada em ABA (Applied Behavior Analysis), cujo planeamento na intervenção deve ser individualizado. Isto é, os profissionais da educação têm a obrigação de saber como inserir esta criança na sociedade; ter uma atenção individualizada das necessidades daquele aluno; que excessos comportamentais deve trabalhar e o que ele sabe ou não fazer. O que se tem hoje, segundo a entrevistada, tanto em Angola quanto no Brasil, é um sistema curricular padrão para aqueles que estão “dentro da curva” da necessidade, e aquelas crianças com TEA têm sido esquecidas.

Tem de se capacitar os profissionais, disse, de forma a se adaptarem a esta necessidade, pois “não é a criança que se deve adaptar à rotina da escola e sim a escola adaptar as condições para melhor ensinar estas crianças”, defende. O autismo não é uma doença, de acordo com a doutora, é uma condição disfuncional e existem intervenções bem-sucedidas para minimizar isso. Não existe outro tipo de intervenção para o autismo, senão a comportamental. “Existe a medicamentosa para trabalhar outros sintomas, quando existe, por exemplo, criança com ataques epiléticos, mas o fundamental para o tratamento do autismo é o comportamental”, reforça a especialista.

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