Angola e Cuba, sempre!

Amanhã será um dia especial para quem vive ou viveu no Cazenga . Também será para mim. Provavelmente, a maioria dos habitantes deste município, que já foi tido como um dos mais populosos e industrializados do país, também se irão rever na (re) inauguração da Escola Angola e Cuba. Há alguns anos que tenho visto apagar partes da minha história. Não que a minha memória não esteja boa. Mas a de quem tem a missão de preservar o legado de várias gerações, incluindo a nossa da década de 70 e 80, tem faltado alguma consistência. Vieram-me as lágrimas quando vi que o antigo colégio ‘Nova Luz’, onde fiz a primária, depois de uma ‘pré-cabunga’ na 230, tinha sido riscado do mapa, dando lugar a um terreno praticamente subaproveitado. Consigo sumiram as paredes em que milhares de crianças, como eu, esperavam no princípio da década de 90 transformar-se no ‘Homem Novo’ propalado pelo MPLA. Mas foi quase em meados da década de 90 que fomos empurrados pela história para o monstro de betão da 5ª avenida. Éramos os miúdos do musseque e de uns poucos bairros urbanizados deste município, onde uns poucos tiveram a sorte de lá estudar. Angola e Cuba era a ex-líbris da nossa época, um edifício construído dentro da cooperação entre os dois países. Como a estrutura da 5ª avenida, outras foram construídas em Luanda. Em cada uma daquelas lajes e salas de concreto nasceram sonhos que se concretizaram hoje nos domínios da política, direito, educação, saúde, música e no jornalismo. Para muitos, as primeiras noções de associativismo vieram daí. Lembro-me de ter sido a partir da escola Angola e Cuba, ainda imberbes estudantes da 8ª classe, que participamos num encontro da então Associação do Estudantes do Ensino Médio, na Assembleia Nacional, ainda na década de 90. Sempre que fossemos ao Cazenga, passando pelo Asa Branca, era quase que impossível não olhar para o estado calamitoso em que se encontrava aquela infraestrutura, onde se desenharam histórias, algumas até de amor que hoje se tornaram exemplos para jovens da minha geração. À primeira vista é sempre tentador apontar o dedo ao Estado. Afi nal, em matéria de preservação e manutenção de infraestruturas nunca fomos exemplos a seguir. E os exemplos existem de sobra. Mas, verdade, aos utentes também tem que se imputar alguma responsabilidade por tudo quanto vem acontecendo com as obras erguidas. Mas, como se diz na gíria, são outros quinhentos. Há dias, o amigo e jurista Esteves Hilário postou imagens da infraestrutura já reabilitada. Dizia ele, agora emprestado também ao Governo Provincial de Luanda, que ‘ estas paredes testemunharam muitas histórias de vida, por isso a nossa luta para que ela não fosse demolida. Pronto aí está. Foi um ano árduo de trabalho, mas o resultado valerá a pena’. A reabilitação da referida infraestrutura não foi um processo fácil. A sua demolição era praticamente um dado, adquirido, escudando-se, na altura, o então administrador do Cazenga, Tany Narciso, em estudos feitos no exterior que indicam que as estruturas do edifício estavam comprometidas. Tendo em conta a rapidez com que se reabilitou o edifício, pouco mais de um ano, muitos se questionam sobre a veracidade dos referidos estudos e da própria durabilidade das obras. Estará o Estado interessado em pôr em perigo os milhares de alunos que vão utilizar o prédio ou estávamos perante os habituais consultores que mais não fazem senão buscar mecanismos para sugaram muito mais os cofres públicos. Na verdade, as obras públicas sempre foram um sorvedouro de dinheiro pelo mundo fora. Entre nós, já vimos casos de estradas destruídas que deram lugar a uma pior, de escolas que acabaram reduzidas em termos de dimensão e qualidade. Por isso, a mim não espanta que a construção de um edifício novo fosse mais rentável para quem fosse bafejado num processo de adjudicação directa ou num empacotado concurso público. Daí que para uns a demolição talvez fosse o caminho mais fácil, sobretudo num país em que servir o Estado sempre foi visto como a hipótese ideal para se servir também. A (re)inauguração da Escola Angola e Cuba servirá, igualmente, para reavivar as nossas lembranças. Será também o corolário de tempos novos no Cazenga, em que uma sociedade civil, com jovens como Nuno Dala à cabeça, fizeram com que o interesse público vincasse em detrimento dos maus intencionados de outrora.

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