Multichoice: um império sul-africano que promete crescer em 2020

Joe Heshu, director executivo do departamento de comunicação empresarial do grupo Multichoice, corporação com sede em Joanesburgo, na África-do-Sul, entrevistado no final do ano passado, garantiu que a companhia de distribuição de sinal televisivo continuará a crescer em 2020, tendo surpresas na manga para apresentar aos clientes neste ano, estando já representados em cerca de 50 países em África, com presença em Angola há mais de 20 anos

Inaugurado em Joanesburgo, em 1993, o grupo MultiChoice multiplicou-se, tornando-se no maior distribuidor de sinal televisivo da África Subsariana, liderando o mercado em países como a África-do-Sul e a Nigéria. Com 18.9 milhões de lares espalhados pelo continente africano com contrato com a rede MultiChoice, os conteúdos transmitidos em cada país são adaptados, cada vez mais, às realidades, crenças, culturas e vivências das sociedades. Esse princípio espelha-se na inserção de canais em línguas e dialectos locais, mas também na inclusão de programas, documentários, filmes e séries, para além das notícias, que retratam o quotidiano de cada nação.

O grupo MultiChoice é composto por várias organizações empresariais, permitindo tonar-se mais completo aos olhos dos clientes e dos vários mercados financeiros onde são actuantes. Assim, na sua constituição tem as empresas MultiChoice África, a MultiChoice África-do-Sul, o SuperSport, a M-Net, a DStv, a Showmax e a Irdeto. Responsáveis pela criação de milhares de empregos em África, apostam em equipas jovens, dinâmicas, criativas e competitivas, havendo grande atenção à equidade de géneros nos cargos máximos em cada departamento, nos vários países onde operam.

No segundo relatório financeiro semestral de 2019, disponível no site da companhia, diz-se que, apesar do impacto negativo que a diária depreciação do Kwanza tem causado na vida dos cidadãos angolanos, os negócios correm razoavelmente. São clientes prejudicados pela desvalorização monetária, situação semelhante vivida na Zâmbia, gerando consequente desaceleração nos negócios da empresa nesses países, todavia, houve um crescimento na carteira geral de subscritores nos demais países, equivalente a 7%.

 

No MultiChoice Media Showcase 2019, evento que realizam anualmente, intitularam-se: “O contador de histórias mais amado de África.” Quem teve essa ideia engenhosa de marketing e, porquê?

J.H.: (Risos) Bem, confesso não ter a certeza de quem pensou nessa frase como slogan. Independentemente disso, revela um trabalho de equipa, profissionais que dedicam corpo, alma e mente aos projectos da empresa e investem tudo de si para levar o melhor serviço à casa de cada um dos nossos clientes. Com a transmissão de desporto, um dos segmentos mais fortes do entretenimento, telenovelas e programas com temas actuais, dominamos a TV aos Domingos, na África-do-Sul, literalmente. (Risos) E pelo feedback dos clientes, menções nas redes sociais e indiscutíveis resultados que temos, porque, nos mercados onde estamos inseridos lideramos ou somos um dos três líderes no pódio, parece-nos uma descrição justa e adequada.

O entretenimento é um negócio gigantesco e o grupo MultiChoice mostrou, no vosso Media Showcase 2019, ter uma grande participação na vida dos subscritores, clientes. Quão bem tem isso corrido?

J.H.: Os nossos discursos estavam escritos no teleponto, contudo, como viu ontem, o Niclas Ekdahl, C.E.O. da unidade de “Connected Video” foi para além do guião e pediu desculpas relativamente à questão da DStv Now, surpreendendo a todos. Eu não estava à espera que ele pedisse desculpas. (Risos). Todavia, mostrou espontaneidade e paixão pelo seu trabalho, a sua sinceridade naquele momento, tocou-me e não é a primeira vez que ele faz isso. Da mesma forma, posso mencionar a Yolisa, C.E.O. de Entretenimento, transmitindo que o nosso compromisso com e entrega à empresa vem do topo para a base. É importante que a nossa mensagem seja percebida porque, os profissionais da MultiChoice amam realmente o seu trabalho e fazem-no para influenciar positivamente as vidas dos clientes.

Actualmente, as alterações climáticas e os demais problemas que afectam drástica e irreversivelmente o ambiente, são um foco mundial. Quão envolvido está o grupo MultiChoice na luta pelo ambiente?

J.H.: Na verdade, não muito… Temos tácticas “eco-friendly” desenvolvidas pela área tecnológica do grupo, a Irdeto, que pretendemos expandir para o Quénia. E fazemos a reciclagem dos equipamentos informáticos.

E quanto à filantropia? Dedicam-se a alguma causa ou patrocinam Organizações Não Governamentais?

J.H.: Há alguns anos, criámos algo que ajudasse as pessoas mas que, simultaneamente, pertencesse ao nosso ramo de trabalho, onde podemos ter maior impacto. Assim, nasceu o “MultiChoice Talent Factory”. É um projecto de caça talentos na cinematografia, produtores, operadores de câmara, directores, realizadores, facultando sonhos e materializando oportunidades para jovens africanos, em 14 países, como Quénia, Zâmbia, Nigéria e, está a correr muito bem. Aqui na África-do-Sul, chama-se “Magic in Motion” e todos os anos colhemos vários estudantes de cinema e dos programas em que os abrangemos, resultam bons filmes, um deles, produzido em Moçambique, por moçambicanos, será exibido, hoje, no “JoBurg Film Festival”. Além disso, estamos focados em apostar em sectores carenciados, distantes do nosso ramo profissional. Na Nigéria, apoiamos uma instituição de anemia falciforme. Enveredamos pela instrução e promoção do desporto em várias comunidades, nos países onde estamos sediados, nas escolas, principalmente no ensino primário e, em Angola, para além de Luanda, também temos financiado acções filantrópicas ao longo dos 21 anos em que lá estamos.

Até que ponto a vossa taxa global de crescimento tem sido afectada pela crise financeira, e em Angola, particularmente?

J.H.: Acho que a questão é genérica. Os clientes vivem com dificuldades crescentes, o que poderiam adquirir ontem, hoje já não conseguem pagar. Logo, nós temos de nos reinventar para continuar a oferecer serviços extremamente competitivos, mas reajustados em conformidade com a situação dos consumidores. Felizmente, em África temos conseguido posicionar-nos sempre à frente do mercado, agindo antes de os problemas, crises, se instalarem, sendo proactivos e temo-nos saído muito bem nisso. O nosso crescimento anual é forte, especialmente tendo em conta as circunstâncias, e apesar da desaceleração na taxa de crescimento em Angola, a perspectiva global, dos 50 países onde estamos, é positiva. Continuamos confiantes no futuro do nosso negócio em Angola.

Como é que estão a lidar com a implementação do IVA nos vossos serviços em Angola?

J.H.: Numa vertente estratégica, lançámos uma campanha de redução de preços, permitindo aos usuários de alguns dos pacotes, como o Premium, pagar o mesmo de antes ou menos, apesar de o IVA já estar incluído no preço.

A concorrência em Angola, a ZAP, assinou exclusividade com a Globo, tendo este canal prestigiado e muito visualizado pelos angolanos e angolanas, desaparecido dos vossos pacotes na DStv. Foi difícil a “perda”? Já recuperaram?

J.H.: É importante distinguir dois aspectos: uma coisa é a fama e boa reputação do canal, e outra, são as estatísticas a respeito de quem realmente assiste, o que muitas vezes não coincide… E, em Angola, fizemos um estudo sobre isso. São coisas que acontecem neste mercado, nós estamos preparados para lidar com isso, recorrendo à inovação em outros segmentos, como a inserção de mais telenovelas, principalmente as brasileiras baseadas nas Sagradas Escrituras, Bíblia, mas também canais com novelas mexicanas e, assim, foi possível superar rapidamente o impacto negativo gerado no momento. O facto de termos 5 canais falados em português, com realidades próximas aos clientes, cidadãos, também ajuda. Em geral, em África, estamos mais e mais direccionados para a divulgação de produções locais e com línguas e dialectos nacionais.

Estarem um passo à frente das necessidades dos clientes é o vosso foco. Por isso, aperfeiçoaram o Apoio ao Cliente aqui na África-do-Sul, com a personalização do serviço nas redes sociais. Para quando essa realidade em Angola e Moçambique?

J.H.: O que implementamos num mercado, trabalhamos sempre para, o mais rapidamente possível, estar disponível nos outros. Em Angola e Moçambique, a grande diferença é a língua, que não é a inglesa, portanto, todas as programações do software que usamos no WhatsApp e outros, têm de ser traduzidas para português. Após o período de teste na Namíbia, por ser um mercado mais pequeno, saberemos quando activar em cada país, sendo que, em Angola, já há experiências feitas.

Disse há pouco que vocês, grupo MultiChoice, têm-se saído muito bem nos negócios em termos de inovação, lucratividade e aumento na carteira de clientes, mas que querem sempre mais. Então, o que mais se pode esperar de vós?

J.H.: Queremos estar em todo o lado, (risos) porque, de facto fazemos o que mais ninguém faz, conseguimos mostrar e representar África, contar as histórias das sociedades africanas actuais, e ao longo dos anos, como mais ninguém conta. E, em jeito de curiosidade, partilho que o nosso crescimento está registado em peças, no nosso museu, na sede da empresa, temos a evolução dos nossos equipamentos tecnológicos, os vários descodificares produzidos, o registo da primeira emissão televisiva que fizemos, é muito interessante visitar e conhecer. Para 2020, e o futuro mais adiante, estamos optimistas relativamente aos nossos negócios em África em geral e Angola em particular, porque qualquer companhia que não se tenha apercebido do potencial económico de Angola e do continente africano, não está atenta e, nós, MultiChoice, o trabalho que temos feito em África posiciona-nos num patamar para competir com qualquer concorrente no resto do mundo, porque afinal somos “o contador de histórias mais amado de África”!!!

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