Falta de balneários públicos em Luanda deixa cidadãos sem alternativa

Muitos balneários públicos espalhados pela cidade de Luanda estão inoperantes, segundo constatou uma equipa de reportagem de OPAÍS. Preocupados com a situação, alguns cidadãos confessam não terem outras escolha, se não, quando necessário, fazer as suas necessidades fisiológicas em locais impróprios, uma situação prejudicial para a saúde e o ambiente

A falta de casas de banhos públicas em várias áreas da cidade de Luanda tem deixado cidadãos sem alternativa, sendo que muitos sentem-se obrigados a fazer as necessidades em locais proibidos. Para João André, estudante, essa situação seria ultrapassada com a reabilitação das casas de banho públicas, espalhadas pela urbe luandense, e não prejudicar o ambiente. “A cidade de Luanda alberga hoje milhões de habitantes, pelo que não se justifica a escassez de casas de banho públicas para que os cidadãos, que diariamente andam pela cidade, possam, em caso de necessidade satisfazer as necessidades fisiológicas”, frisou, sublinhando que os balneários existentes continuam a ser um autêntico problema.

No 1º de Maio, por exemplo, a nossa equipa constatou que o único urinol público que lá existe não funciona todos os dias por falta de água e devido ao avançado estado de degradação, segundo um dos responsáveis pela sua manutenção. Sob condição de anonimato, com medo de sofrer represália, o jovem explicou que a falha do funcionamento tem a ver com a falta de água canalizada que deixou de jorrar nas torneiras há muitos anos. “A administração local só dá água quando lhes apetece. Muitas vezes tenho de manter fechado por falta desse líquido. As pessoas para usarem esse balneário pagam um valor ínfimo que ronda de 20 a 50 kwanzas. Dinheiro que uso para comprar papel higiénico e, às vezes, água”, afirmou.

Para ultrapassar a morosidade da própria representação do governo, o nosso interlocutor vê-se, muitas vezes, obrigado a recorrer à União dos Escritórios Angolanos, que oferece água para manter o balneário disponível às pessoas. Apesar disso, as condições continuam a não ser das melhores. Ao entrar no recinto, podemos constatar que o lado feminino já não funciona, razão pela qual as senhoras são obrigadas a utilizar a ala masculina, o que muitas vezes cria constrangimentos. O referido espaço também não possui condições. As sanitas encontram- se encardidas e sem condições para a sua utilização. Muitas pessoas que usam esses sanitários correm o risco de contrair doenças graves de infecção, segundo um especialista.

Urge a necessidade de reabilitação

Maria Makiesse, que frequenta essa zona quase todos os dias úteis da semana, disse que uma vez já tentou usar o referido balneário, mas viu-se obrigada a desistir em função das condições que encontrou no seu interior. “Esse balneário não funciona todos os dias. No entanto, das poucas vezes que abre as portas só os rapazes conseguem utilizálo, porque a parte feminina não funciona. Por outra, nunca tem água, nem papel higiénico”, frisou. A jovem acrescenta que “isso está aqui e não serve para nada. Deviam reabilitar para o bem da população. Muitas vezes urino em locais impróprios”, confessou. Por sua vez, António Massango, descreveu a carência de casas de balneários públicos como um dos factores que contribui para a deformação do visual da cidade. “Temos um número ínfimo de latrinas activas, mas muitas já não funcionam. Deixa dizer que este facto leva com que os citadinos acabam defecando e urinando em lugares impróprios, não medindo esforços para satisfazer suas necessidades biológicas”, afirmou.

Um contributo à proliferação de várias doenças

De acordo com Massango, a falta de latrinas tem contribuído para a proliferação de várias doenças, como a cólera. Segundo ela, é fundamental que se reflita em torno disso, pois, numa cidade com situações do género, a população vai certamente fazer uso de locais públicos. “Luanda já é uma metrópole e das mais activas de África. É impressionante o facto de quase não ter urinóis activos… Isso prejudica a imagem da cidade, uma vez que os citadinos ficam com poucas opções de satisfazer as suas necessidades maiores e menores.”, disse, realçando que isso se agudiza “pelo facto de também sermos uma cidade pouco instruída e muito ignorante”. A jovem advogou a necessidade urgente de se aumentar os urinóis pela cidade a fim de se evitar a proliferação de doenças e ataques ao meio ambiente. Para ela, muitas escolas e outras instituições públicas estão servindo de latrinas por falta destas.

“Sofremos todos os dias por falta de balneário”

Maria Francisco, residente na comuna do Funda, em Cacuaco, tem a nora hospitalizada há mais de uma semana no Hospital Militar, cidade de Luanda. Com isso, vê-se inúmeras vezes em situação difícil quando precisa de satisfazer uma das necessidades fisiológica devido à falta de balneários públicos. Ela diz passar vergonha diante da polícia local, nessas circunstâncias. “Nós sofremos todos os dias devido à falta de casas de banhos públicas. Eu durmo aqui em frente à igreja da Sagrada Família por misericórdia e muitas vezes que estou apertada faço as minhas necessidades em locais impróprios. Apenas me cubro com pano”, contou. A mesma opinião é partilhada por Domingas Morais.

Disse ser um sofrimento que nunca acaba. “É tanto sofrimento que se vive nessa cidade que há pessoas que não têm noção. Angola já não tem mais desenvolvimento. Estamos a sofrer. Aqui nós urinamos nas paredes correndo o risco ser violada por vários jovens que aqui passam”, disse. Os nossos interlocutores apelam o Governo Provincial de Luanda a construir balneários em várias áreas da cidade para evitar que os cidadãos sejam obrigados a recorrem ao campos baldios e noutros espaços. Agachadas, cobertos com panos ou meios desnudos, depositam dejectos humanos em locais inapropriados. Recordaram que em tempos idos todos os largos do centro da cidade tinha um balneário público, mas estragaram por falta de manutenção. Porém, nem tudo está mal. A nossa equipa também constatou alguns balneários públicos, como o da Ingombota, que funcionam bem e todos os dias.

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