Não perguntem o que o país pode fazer por nós, mas o que nós podemos fazer pelo país!

POR: Carlos Parrotos

Nunca tanto como nos dias de hoje, o recurso aos valores coletivos e mais profundos, no sentido da pura espiritualidade, se tornou tão urgente e imperativo. As sociedades são um conjunto complexo de relações, como por exemplo organizacionais, institucionais ou pessoais, além obviamente de outros intervenientes. Para que haja confiança e qualidade nessas interacções, a transparência, cooperação e ética, são valores, absolutamente essenciais, sem os quais, o presente torna-se penoso e o futuro comprometido. Vários e sólidos estudos de desenvolvimento humano, revelam que o ser humano tem duas dinâmicas diárias: uma em que somos independentes, ou seja somos objectivamente responsáveis pelas nossas decisões e por isso autores próprios dos nossos resultados e uma outra que revela que somos igualmente interdependentes, ou seja, para conseguirmos resultados maiores, precisamos uns dos outros, logo, estamos interligados pelas acções uns dos outros. É um dado impressionantemente inspirador, para percebermos que o melhor para a nossa vida não passa ou depende apenas de nós, ainda que seja determinante a postura e atitude perante a caminhada, mas igualmente na qualidade das relações existentes num todo, ou seja, a forma como nos comportamos em sociedade. Por isso, garantir que não falamos apenas das boas condutas e comportamentos, mas igualmente fazemos o que pregoamos, é essencial para que todos possamos ganhar. E ter calma pois é um ingrediente seguro, mas moroso. Não se pode continuar (e a opção pelo verbo continuar é propositado) a falar da compaixão, interajuda, empatia, solidariedade, sinceridade, compreensão, humildade ou bondade, sem a praticar!. Mahatma Gandhi, já no alto da sua sabedoria e humildade referia – “Seja mudança que quer ver no mundo”. Estudem-se os países que habitualmente aparecem no topo dos vários índices de desenvolvimento. O que os une? Todos eles têm em comum, esta lógica interiorizada de que estamos e somos interdependentes. Este valor intrínseco à existência de cada um de nós, que é trabalhado desde muito cedo, em casa com os pais, depois reforçada na escola e finalmente  avaliado pela sociedade em si mesma, através da observação colectiva e correcção de comportamentos desviantes!. Por exemplo, no Índicie de Desenvolvimento Humano (IDH), em 1º lugar aparece a Noruega (como país produtor de petróleo, a gestão directa é feita pela estado e todos os ganhos são para aplicar no sector público – transportes, educação, saúde, vias de comunicação). Angola aparece em 147º, quando são avaliados 189 países. O Índice de Percepção de Corrupção (IPC), em 180 países, Angola é o 15º onde esta percepção é mais gravosa. O que teve melhor avaliação foi a Dinamarca. Se avaliarmos o Índicie de Competitividade Global (ICG), em 140 economias consideradas, Angola ocupa a 137 posição, ou seja 3º lugar a contar do fim, sendo que a economia mais competitiva são os Estados Unidos da América. Se analisarmos o relatório das economias aconselhadas a fazer negócio – Doing Business Report – em 190 países analisados, Angola ficou na 173º posição, ou seja no 17º lugar a contar do fim, sendo a Nova Zelândia o melhor posicionado. A percepção de uma sociedade forte, humanizada, que se preocupa com o próximo, onde as palavras não são apenas palavras, mas têm braços e pernas, capazes de operacionalizar o que de melhor de apregoa. O segredo está na sociedade, que essencialmente nada mais é, senão pessoas. Perceber, para anular os efeitos negativos e devastadores da corrupção, entender a imoralidade e oportunismo na subida dos preços, quando o mesmo é injustificado e só visam pretensões pessoais, assim como a extensão dos danos causados pela inoperância daqueles que tanto podem fazer pela colectividade e pouco fazem, seja por incapacidade ou apenas por estarem envolvidos em interesses particulares. Por isso neste momento de crise, é tão importante conseguirmos ser diferentes e não pensar apenas em nós, pois se o fizermos  estamos a piorar o todo! Nós seremos sempre mais pequenos que o todo e estamos no momento de olhar para o mundo, a sociedade no geral e não apenas nos nossos sapatos e questionar – “O que posso eu fazer para contribuir para a mudança?” – E já agora, estou a fazer alguma coisa para ajudar a mudar? Como disse John Kennedy, no seu discurso de tomada de posse – “Não perguntem o que pode o país fazer por nós, mas o que podemos nós fazer pelo país.” – E Angola está precisamente nesse ponto. Não peçam ao Estado. Ajudemos o Estado. E o que podemos fazer? Mudando os comportamentos e exigir dos outros exactamente o mesmo, sendo atentos e vigilantes. Ou mudamos todos, ou só alguns não chega. De igual forma, compreender sem qualquer margem para dúvida, que os resultados da ganância e indiferença, virão um dia ter connosco. É só aguardar. E neste momento há bons sinais disso mesmo, por exemplo, as mortes evitáveis em hospitais públicos, a galopante e crescente índicie de criminalidade, o aumento sem justificativo fiscal de preços que a todos prejudica, etc. Ou se quisermos olhar para o mundo, as questões presentemente tão faladas de poluição global, que tem obrigado a ONU quase todas as semanas a fazer denúncias alarmantes. Mude-se urgentemente a nossa percepção pelo outro. Olhemos para sociedades onde com foco, empenho, objectivos bem traçados e perseverança no bem comum, fizeram a diferença para melhor. Se eles conseguiram, nós também somos capazes.

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