Samba sem pandeiro

POR: José Manuel Diogo

Hoje vou falar do Brasil. É verdade que as nações europeias — sobretudo as do Sul da Europa que experimentaram a contrarreforma – pela dimensão da sua história e a grandeza do seu sofrimento, desenvolveram o preconceito a um nível que não encontra igual nas outras nações do mundo. Culturalmente as pessoas são ao mesmo tempo muito formais e desconfiadas. Esta é uma característica que resulta de séculos de sofrimento, mas também por isso, no sentido inverso, as jovens nações têm menos preocupação com detalhes cerimoniais o que, muitas vezes, debilita o seu poder internacional. Ainda há pouco tempo eu defendi que a ideia que os Europeus têm do Brasil, da sua cultura, da sua política e até dos seus políticos – Jair Bolsonaro à cabeça – está contaminada de um viés misto de arrogância e ignorância que não os deixa compreender nada do que está se passando no atual momento político brasileiro. Mas até eu começo a ter dificuldade em me explicar. Sempre que estou no exterior, conversando com amigos ou parceiros de trabalho, eu defendo que Bolsonaro é positivo para o Brasil. Mas as reações ao meu otimismo são cada vez mais pessimistas. Mesmo que eu apresente exemplos de como a economia vai melhorar, eles me olham com crescente desconfiança e ultimamente, como se eu fosse louco. Esta destemperança verbal de Bolsonaro começa a fazer mossa na credibilidade internacional do gigante sul americano e há cada vez menos paciência para as coisas que ele diz. Todo o ganho que existiu na mudança política do Brasil pode se perder se o presidente não entender — de uma vez para e sempre — que já não está na linha vermelha carioca, mas sim no prado verde do planalto. Fazer oposição é diferente de exercer o poder. O Planalto já é dele, mas ele não entendeu isso ainda e continua se comportando como aquele capitão que, querendo o bem do Brasil, podia dizer tudo o que quisesse. Agora já não pode É preciso que Jair Bolsonaro entenda a sua própria receita. Perceba as razões pelas quais foi eleito e incorpore o papel dos elementos externos ao seu sucesso. O exercício do poder exige aos líderes políticos uma preparação que Bolsonaro manifestamente não tem. É preciso que os homens de Estado desenvolvam uma capacidade superior de suportar a solidão. Bolsonaro tem de parar de falar dele e de seus filhos para começar a falar de Brasil e de todos os Brasileiros. Bolsonaro é odiado por muitos e amado por cada vez menos. Mesmo os apoiantes mais fanáticos que, nas mídias sociais, defendem o presidente num fervor quase religioso, estão perdendo ímpeto. Mesmo os credos evangélicos que apoiam o presidente têm cada vez dificuldade em explicar as piadas de mau gosto sobre o tamanho da cabeça dos fiéis nordestinos, ou a verborreia permanente com que maltrata a língua dos nossos antepassados comuns. No final o Brasil fica em pane na mesma curva de sempre. De que vale o samba se o pandeiro é mau.

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