Nós e o coronavírus

A máxima de Jonas Savimbi ‘1º o angolano, 2º o angolano, 3º o angolano, o angolano sempre’ já foi um dos toques de telefone mais ouvidos numa determinada época. Era normal ouvi-lo a partir dos telemóveis de jovens, uma boa parte dos quais sem qualquer simpatia com o líder fundador da UNITA ou com a formação política por ele formado. Para muitos deles, era – ou continua a ser- a manifestação de uma vontade, ainda inalcançada, em que o facto de termos nascido neste país nos daria lugar a determinados privilégios. Há muito que ser angolano não tem sido uma tarefa fácil. Nem tanto pelas dificuldades que herdamos a cada dia que passa em termos económicos, sociais e até políticos, mas principalmente pela forma como somos tratados pelos nossos próprios concidadãos, mormente aqueles que têm responsabilidades acrescidas. Ser angolano, para muitos, seguramente equivale a um atleta numa corrida de estafeta, onde poucos pretendem participar por causa dos obstáculos. Não é em vão a corrida frenética que muitos encetam para a segunda ou terceira nacionalidade e assim terem os seus direitos mais básicos defendidos. Na hora do juízo final ou em qualquer aflição, o país de adopção sempre haverá de ser a melhor porta de entrada. Durantelargosmeses, vimosatravés das páginas de jornais anúncios para a contratação de quadros para empresas privadas, algumas até em sectores que podiam ser ocupados por nacionais, desde cozinheiro, chefe de sala ou até mesmo um barman, mas a preferência tem sido dada aos expatriados. Nada mal em determinados casos, mas noutros tem sido uma ofensa mesmo. Mas o MAPTESS não tugia nem mugia. Alguns aplaudiam, porque, afi nal, entre os que mandam e podem, quem não tem um segundo, terceiro ou quarto passaporte na algibeira? Em determinadas situações, o silêncio sepulcral das autoridades e uma anormal falta de entrega na resolução de casos em que estejam envolvidos angolanos já roça ao ridículo. É fácil notar que, independentemente dos discursos políticos, os angolanos não parecem estar entre as prioridades. Nem em primeiro, segundo ou terceiro lugar. E o que está a acontecer com os nossos compatriotas na China, assolada pelo coronavirus que já fez quase mil vítimas, começa a ser assustador. Há dias vimos – e ouvimos- o embaixador de Angola na China dizer que não havia possibilidade de se retirar os nossos concidadãos, porque as autoridades chinesas não estavam a permitir a saída de estrangeiros devido a um ‘black out’ na cidade de Wuhan, que é o epicentro do coronavirus. Confesso que os mesmos argumentos avançados pelo diplomata haviam sido reiterados por alguns estadistas, entre os quais o polémico Jair Bolsonaro, do Brasil, quando pressionado pelos brasileiros. Poucas semanas depois, fruto da pressão que vinha sofrendo, o Brasil já resgatou os seus cidadãos, sobretudo os que viviam no epicentro do problema, depois de negociações com as autoridades chinesas. Portugal, aqui tão pertinho para os nossos dirigentes, também preferiu jogar no seguro e buscar os seus antes que alguma tragédia ocorra. Além destes dois países, outros também têm optado por retirar os seus cidadãos, trazê-los de volta mesmo que antes sejam submetidos a uma quarentena. Angola, como sempre, ainda opta por esperar. Não quer beber dos exemplos daqueles países que têm servido de tábua de salvação em muitos aspectos. Talvez acredite mais numa solução milagrosa dos chineses para estancar o coronavírus e assim se salvaguardar a vida dos cerca de 50 cidadãos que vivem e estudam naquela cidade. Criam-se condições para para os passageiros que escalam ou desembarcam em Luanda provenientes da China, o que é de louvar, mas se espera por um milagre externo para os nossos irmãos. Depois de ter escutado o embaixador ainda conjunturava uma solução para breve. E que as principais inquietações dos jovens fossem sanadas. Mas parece que não. Aumentaram nos últimos dias os vídeos de apelos ao Executivo para que sejam retirados, uma vez que o número de casos aumenta e de mortos igualmente. Para alguns, além do coronavirus, a outra grande ameaça é a fome. Já não há o que comer para muitos estudantes, tornando assim a situação mais dramática. É nestas situações em que se deveriamos sentir que nascemos no país certo. Aquele mesmo que foi considerado como a trincheira firme da revolução em África e que augura ser um dos colossos do continente berço da humanidade nos próximos tempos. Tendo em conta a frota em terra, aviões é que não devem faltar na TAAG para uma situação de emergência destas e trazer os estudantes e não só. Algumas destas aeronaves até viajam entre a Europa e América, e se calhar na Ásia, vazios, como atestam algumas imagens que circularam recentemente. O que falta, meus senhores? Digam ao menos, assim saberemos as razões. Mas jã não falem em impedimentos, como disse inicialmente o embaixador, porque outros países já passaram por eles.

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