Yuri Quixina: “um país que tem metro deve ter uma educação estrondosa”

“um país que tem metro deve ter uma educação estrondosa, muitos factores que influenciam o bom funcionamento de um metro nós não temos “

É a segunda vez que Ângela Merkel vem a Angola. Como olhou para esta segunda visita?

A Alemanha é um país muito importante no mundo, com uma lição muito importante a dar a Angola, cabe a nós angolanos darmos ar a esse desenvolvimento.

Vários acordos foram assinados, incluindo a construção de um metro de superfície. No seu entender, constitui prioridade, há condições para que o país possa avançar com este tipo de projectos?

É importante explicar as condições do acordo. O acordo diz que são 3 mil milhões de dólares. Em segundo lugar, essa parceria, segundo informações, aponta que Angola fica com 30 por cento e os restantes 70 por cento ficam com os agentes privados interessados, não se sabendo se são alemães ou privados nacionais, mas neste momento não temos dinheiro para isso. Em função dos grandes riscos que a economia angolana tem, não consigo ver empresas alemãs virem com 3 ou 2 mil milhões para investir em Angola.

O que estou a tentar defender é que nós não sabemos o projecto de viabilidade, não sabemos se vão ser construídas todas as linhas de uma só vez. Todo oprojecto sem crescimento económico pode ser inviável. Falta muita informação por analisar. Eu vejo este projecto em duas perspectivas: a primeira é política, pois se arranca hoje os resultados vão sinalizar boa governação para 2022. Politicamente é vantajoso, é viável. Agora, na perspectiva económica, se for privado, sem o Estado contrair dívida, acho interessante e eu apoio. Mas um país que tem metro deve ter uma educação estrondosa, muitos factores que influenciam o bom funcionamento de um metro nós não temos.

Na perspectiva económica, a solução para Luanda não está em Luanda, ou seja, Luanda vai ser Angola porque isto vai atrair mais pessoas para virem cá viver. Quanto mais nós construirmos investimento em Luanda, o país vai ficar mais intoxicado. As previsões de crescimento económico até 2025 nem estão acima de 4, é muito abaixo de 4. Só o crescimento é capaz de fazer este projecto viável. Há países que têm metro e estão em recessão.

Não é mais fácil pegar estes 3 biliões de dólares para investir na malha rodoviária do país que liga as províncias mais produtivas?

Foram assinados também acordos no domínio da reabilitação de estradas… Sim, mas a questão é: é impossível um país ter sucesso sem resolver estes problemas: nível de escolaridade muito baixo, qualidade de educação muito baixa, saúde débil. Metro agora? Esperava primeiro o crescimento económico ser explorado pelo talento do povo. Se eu fosse alemão, eu iria rir feliz, por que este país está a meter metro sem resolver problemas básicos. Se for dívida, estou a emprestar a num país que depois me vai dar retorno.

Fica feliz porquê?

Nenhum europeu vem fazer investimento em África só para te oferecer dinheiro, isto significa que os alemães já viram retorno interessante do ponto de vista da dívida. Fico feliz porque é um nicho de mercado com garantia do Estado.
Foi também assinado um acordo em que as empresas alemãs vão explorar os caminhos-de-ferro de Benguela. Aqui eu já concordo, na medida em que vêm aí grandes vantagens, conhecimento, experiência e tecnologia, porque a Alemanha é muito forte neste sentido, porque os nossos compatriotas vão ganhar conhecimento e tecnologia e isso é muito interessante. Depois, é a poupança externa.

Como é que vê o Executivo angolano, este liderado pelo Presidente João Lourenço, pois os acordos com vários países quase são s e m e lhantes e têm m u i to a ver com os mesmos negócios e quase que não se vê, na prática, a implementação dos acordos?

Eu sempre defendi que nós precisamos de desenvolver capacidades e aproveitar parcerias internacionais. Os grandes não negoceiam à-toa com os pequenos. É normal que assim seja, por que os projectos são os mesmos porque o partido também é o mesmo, mas nós precisamos desenvolver capacidades para promover o talentos.

O Conselho de Ministros aprovou a proposta de lei do regime jurídico de Recuperação de Empresas e da Insolvência, como se pode olhar para esta medida que vai depois para a Assembleia Nacional?

Observo com optimismo, porque o Estado tem muitos encargos e não faz muito sentido. Estas empresas comem muito os nossos impostos. Nós trabalhamos para dar às empresas públicas e elas não dão nada.

Este diploma é só para as empresas do Estado?

Sim. O Estado entrou com o processo de privatização das empresas, só que não há clientes. É preciso ter título de participação que confere ao detentor direito a um rendimento com duas componentes. Como não há clientes, o Estado criou uma estratégia para atrair clientes e neste processo algumas empresas devem ser recapitalizadas, mas o Estado não tem dinheiro, então, o Estado traça essa estratégia. Isso coloca a empresa mais preparada. Mas se nós analisarmos o último relatório do IGAP, 8 das empresas públicas que apresentaram o seu relatório encontram-se em falência técnica, 24 tiveram prejuízos, 10 apresentaram, três foram chumbadas, enfim há empresas que não vão ser recapitalizadas. A teoria de emprestar ao Estado e depois podes ser dono da empresa também pode aumentar a dívida do Estado e é esse processo que trouxe o problema das dívidas ocultas em Moçambique. Mas tem uma vantagem, que é dinamizar a bolsa de valores.

Que soluções, na falta de liquidez, o Estado pode usar para recuperar estas empresas?

Umas não precisam ser recuperadas, precisam ser promovidas a falência, isto aconteceu na Coreia do Sul. Só que isto em África ou em Angola soa mal, é preciso explicar, porque o Estado não pode gastar dinheiro da saúde, educação para saneamento de empresas que não dão lucros, porque quando as empresas são do Estado você está a promover a corrupção, quando têm lucros não entregam ao Estado.

Tem sido chamado para dar o seu pensamento económico fora dos media?

Sim, só pelos estrangeiros.

E pelo Executivo angolano?

Não, nunca fui. Eu acho que o Executivo tem consultores estrangeiros e está bem encaminhado. Faço a embaixadas e a alguns empresários.

leave a reply

error: Conteúdo Protegido!