António Setas

Ele não precisou de desprezar nem os bens materiais, nem quem a eles corre, simplesmente não lhe importava mais do que o estritamente necessário para viver. É assim que me lembro dele, do tempo que partilhamos a redacção deste jornal. Um destes dias falávamos sobre a vida e ele olhava para o mundo com a certeza de que as pessoas se estão a desumanizar. A busca pelo material, pelo poder, a necessidade de se parecer melhor eram coisas que não entendia. Era um homem muito culto, escritor de alma, capaz de se entregar aos outros e pelos outros, ainda que sem o menor esforço para dar nas vistas. E não era o mais velho da redacção, era apenas mais um jovem, pela forma sempre cordata e solícita como lidava com os jornalistas da casa, pela generosidade com que atendia as solicitações e com que procurava ensinar, paciente. Havia quem o chamasse “Avô”, havia quem o chamasse “Setic”, com terminação eslava. E ele respondia saindo do monitor do computador, literalmente, porque lia com os olhos enterrado no ecrã. Nas última viagem ao exterior saiu daqui preocupado com a sua saúde. Alguns dias depois, antes da data prevista para o regresso, ligou-me e deu-me a novidade: “olhe, rejuvenesci, tenho saúde melhor que a de muitos jovens, estou quase uma criança”. A voz descansada. Morreu ontem o António Setas, dias depois de atropelado numa passadeira da sua Corimba. Matou-o o tal mundo que corre desalmado.

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