Anti-romance

O romance, cada um inventa como quer. Num dia como o de hoje, porém, em Angola a coisa é capaz de ser algo difícil, principalmente nas grandes cidades, onde o namoro quase que está condenado a acontecer entre quatro paredes apenas. Um par de namorados jovens que resolva aproveitar a tarde para um piquenique em Luanda já sabe que o melhor é mesmo esquecer a ideia. Não há jardins, não há onde, talvez numa praia suja e só mesmo tendo carro para lá chegar. Outra ideia poderia ser um passeio de carro, com boa música e deixar o tempo apenas passar, despreocupados, mas aí há a impossibilidade do sossego, toda a atenção tem de ser dada aos buracos e lombas. Passeio a pé é outra maka mais, passeios esburacados, falta de sombra, carros e vendas a atrapalhar. Não dá também. Passar pelo mercado das fl ores e escolher uma rosa fresca para a moça, só perto dos cemitérios, o que causa arrepios. Por fim, talvez um jantar num restaurante com montes de casais a fazer a mesma coisa, uma ida ao cinema ou ao teatro na companhia de outras centenas de pessoas também sem opção. De noite, estar abraçados a olhar a lua seria fantástico, não viessem os mosquitos participar na festa e os amigos do alheio a quem pertence a cidade quando o sol se vai. Com as nossas cidades não adianta contar, o sistema é anti-romance, há que inventar, ser ele a fazer um bolo, por exemplo, deixar uma declaração de amor escrita com o próprio punho, qualquer coisa que fuja da rotina e da multidão. Que não seja dourar com a estupidez aquilo que se faz todos os dias e que já se tornou objecto de todas as piadas. Se calhar, o mais romântico para o dia de hoje seja a simplicidade das palavras, o toque na mão e a conversa com os olhos, o mais simples, mas que seja a certeza de um grande amor nos dias e anos seguintes.

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