Um passo de cada vez

POR: Israel Campos

Uma das grandes “boas novas” resultantes da recente deslocação da Chanceler Alemã, Angela Merkel, ao nosso país, foi o anúncio do início da construção do metro de superfície de Luanda, programado ainda para este ano, numa parceria público-privada entre agentes dos dois países. Logo após a comunicação, não foram necessários muitos segundos para que se abrisse, quase que de imediato, um debate aceso sobre o assunto nas redes sociais, que levou muitos descrentes, dentre os quais me incluo, a questionar a real importância que a construção de um metro teria na capital do país, tendo em conta a escala visível e nítida de prioridades que Luanda tem há muitos anos, sequencialmente ignoradas pela mesma estrutura de governação. Luanda, como sabemos, é uma província sobrelotada. É como um prédio a rebentar pelas costuras, e estou a ser simpático, por albergar um número excessivo de pessoas, tendo em conta aquela que é a sua real capacidade. A nossa capital é problemática. É o “inferno na terra” para todos aqueles que são lançados ao grande desafio que é governar- lá, facto pela qual não é recomendável para governadores com problemas cardíacos, como muitos dos que já tivemos. Os problemas de Luanda são estruturantes e conhecidos, estão identifcados e são repetidas vezes debatidos. Mas por detrás de tanta maka para uma só cidade há uma explicação, pois, como devem calcular, estes problemas não caem do céu. A excessiva concentração dos serviços na capital, causando, por isso, a deslocação de pessoas vindas de distintas zonas do país para Luanda, é uma das grandes causadoras do cenário actual, e sobre isto penso estarmos todos bem conversados. Da extensa lista de problemas de resolução urgente da cidade de Luanda, consta, evidentemente, a problemática da mobilidade. É duro andar por Luanda! Basta cogitar o cenário para que surja uma imediata dor de cabeça. Os transportes públicos na nossa capital são inexistentes e infuncionais, quando existem. A negligência da actuação do Estado permitiu que os entes privados monopolizassem o mercado dos transportes. Como resultado, hoje temos uma cidade, quiçá um país, que pode literalmente parar caso a Associação dos Taxistas Angolanos, ou equivalente, decrete uma greve por qualquer razão que seja. Se pararmos para pensar com um bocado de seriedade: isto é muito grave. O garante da mobilidade diária dos luandenses está nas mãos da boa fé e dos interesses financeiros de entes privados, pois o Estado, em mais um caso, falhou na sua missão de providenciar os serviços básicos à população. Assistindo a este cenário, vejo aí a legitimidade do Estado, em nome do tal dito cujo “novo paradigma”, sentir a necessidade de corrigir o que está mal, mas só mesmo isto. Pois, no sector dos transportes há muito pouco para se melhorar, o que não permite a conclusão do slogan. Aqui estamos todos na mesma página. É preciso se fazer o que devia ter sido feito. É preciso que o Estado garanta, como é sua obrigação, os serviços básicos aos cidadãos, onde incluímos a mobilidade. Mas será que o metro de superfície seja o mais recomendável ponto ISRAEL CAMPOS de partida? Particularmente, e isto vale o quanto vale, não acredito que sim. Defendo a necessidade de aprimorarmos, primeiro, os serviços já existentes e os transformarmos em serviços de referência nacional, regional e quiçá mundial. É preciso, por exemplo, que antes de entrarmos para a grande aventura do metro de superfície, que Luanda tenha um serviço de autocarros que funcione para todos. É preciso que os autocarros não sejam mais sinônimo de dor de cabeça para todos aqueles que se proponhem usá-los e que deixe de ser um serviço exclusivo para aqueles menos privilegiados, ou seja, o “transporte da confusão”. E como é que se faz isto? Conferindo mais qualidade aos serviços, comprando mais autocarros, fiscalizando melhor as operadoras, incluindo mais rotas e paragens, exigindo mais dos cidadãos sobre os cuidados com o patrimônio público, etc etc. É preciso que os nossos autocarros funcionem tão bem ao ponto do próprio ministro dos transportes poder abdicar, algumas vezes, do seu veículo pessoal para que possa ir trabalhar de autocarro, como vemos em tantas outras paragens pelo mundo. A ideia de um metro de superfície em Luanda não é uma má ideia, atenção. Só não é prioritária, oportuna, coerente nem realista, ao menos no nosso contexto actual. Numa cidade que se converte em caos sempre que chove é um bocado ambicioso demais acreditar que as coisas vão correr muito bem. E foi esta ambição, motivadas pelos projectos megalómanos com financiamento público, sem o mínimo exigível de coerência e seriedade, que nos trouxe também ao momento de desgraça que vivemos hoje. As vezes, o maior não é o melhor, senhores governantes. É preciso que nos foquemos, neste momento, naquilo que é prioritário para os angolanos e que vivamos, com a máxima seriedade possível, um dia de cada vez…

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