Um adeus sem os amigos que nunca o foram

Por estes dias, aparecer ao lado de um agnóstico, homem assumidamente de esquerda como o António Setas, fica tão mal que nem com ele morto é conveniente. Estamos em tempos de reacertos, de reacomodação dos interesses e dos apetites mundanos, e também da reafirmação da invertebralidade dos covardes. Há que lixar a língua para a nova bota.

Há muito que Setas se dedicava apenas à revisão e ao informal ensino da arte da boa escrita a novos jornalistas e a pretendentes a escribas, mas antes disso Setas marcou o jornalismo angolano, assim como a literatura, o que lhe mereceu prêmios nacionais, incluindo o Sarada Esperança. Não se cobra e nem se exige solidariedade a outrem, esta dá-la quem pode e quem a tem no coração, mas não deixou de ser chocantemente visível a ausência de homens das letras e da imprensa que com ele lidaram na hora do seu funeral, o que é compreensível nestes dias de aparente eleição de novos marimbondos, novas vítimas e de camaleonismo descarado dos que não têm honra.

Para um homem que não partilhou a busca pela prata apenas por vaidade, para um homem que não buscou mais do que a simplicidade e a crença nos seus ideais, de facto, esperar por mais presença era esperar demasiado, está muita gente assoberbada, não em sobreviver, mas a juntar-se ao novo séquito, com as mesmas manhas de sempre, com a mesma desprezível sobranceria, com a mesma execrável falta de dignidade e de amor próprio. Ou, talvez. Com o mesmo instinto de sobrevivência (sejamos algo complacentes), o que catalogaria em muito baixa estirpe os tempos que vivemos.

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