Ministério da Vergonha

POR: Kâmia Madeira

Há bem pouco tempo vivíamos numa espécie de apatia consentida, víamos e fingíamos não ver, sabíamos que não era certo nem justo mas aceitávamos porque TIA (this is Africa/ isto é África) e os que mais têm mandam nisto tudo…. Tal como o Vale do Sidim, este era um lugar paradisíaco para a crueldade, falta de hospitalidade, ganância e apego excessivo à propriedade. Os servidores públicos imbuídos do espírito da clarividência, arrogavam- se de muita sapiência o que lhes foi permitindo mesmo sem ter salário para tal, granjear muitos bens…. A tal propalada acumulação primitiva de capitais criada com o intuito de dar luz a uma classe empreendedora e dinamizadora da economia deu origem aos endinheirados que pegaram nos tais ditos cobres e foram a correr aplicar o dinheiro fora, porque onde já se viu não ter imóveis em capitais europeias ou não ter filhos em colégios caríssimos… quem não sabe das histórias de viagens de fim-de-semana para ver jogos de futebol, ou de jovens imberbes que conduziam carros de alta cilindrada e saiam à noite com malas com dinheiro… Os tais escolhidos, assim que nomeados mudavam-se rapidamente para locais blindados por muros altos e seguranças, compravam roupas de marca e eram vistos pelos seus familiares mais próximos como os heróis que tinham conseguido subir na vida, os que se atrasados para compromissos exigiam batedores policiais para não ter que aturar o trânsito caótico eram com certeza mais vivos dos que acumulavam a orda dos que por infortúnio tinham que sair às 5 da manhã e apanhar filas enormes devido às poucas alternativas rodoviárias. E nesta Sodoma e Gomorra fomos vivendo, sem saber se existiam entre nós os tais 10 justos que nos permitissem não ser destruídos… Não, não nos lançaram nem fogo nem enxofre mas sabemos que não há volta a dar… não foi a auto-censura, foi o estado caótico das coisas e o medo da perda da hegemonia que nos leva hoje a afirmar que temos que combater anos de más práticas conscientes de que muitas delas estão de tal modo enraizadas que levaremos anos a extingui- las… Seria solução continuar a fingir? Claro que não, mas talvez seja altura de criar um ministério da vergonha em que humildemente assumimos que eram tempos lascivos, que cometemos mas estamos dispostos a mudar… comprometendo- nos igualmente a ser alvo de escrutínio e ter consciência de que somos servidores públicos e que o nosso olhar deverá ter uma abrangência maior do que o nosso umbigo. Aguardamos, por acções concretas, por objectivos claros e por uma estratégia definida, não queremos que paire sobre nós a ira do criador por termos inventado uma cama de Sodoma onde esticamos demasiado ou amputamos sonhos e esperanças….-

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