Carta do leitor: Histórias dos anos 70’s, 90’s e 2020

POR: Tazuary Nkeita

Tinha eu 22 anos e estava em Bankya, Bulgária, com outros africanos idos de Angola e Moçambique, entre os quais o agora embaixador António Matonse, para uma formação de seis meses. Nos nossos passeios, nas horas livres, tornava-se comum ouvir gritos contra nós de pessoas que diziam: Tchern! Tchern! – olhem os negros! Olhem os negros! Mas quer os formadores búlgaros, quer os responsáveis angolanos da altura, como o Ndunduma e Luandino Vieira, já nos tinham aconselhado a ignorar tais insultos. A nossa formação contribuiu muito, naquela época, muitos de nós havíamos lido livros tonificantes como “O Homem”, “Na Pele de um Negro” e “A Vida Verdadeira de Domingos Xavier”, ou filmes anti-racistas como “Adivinha quem vem jantar?”. E, em casa, os nossos pais diziam: – “É (o nosso brilho) que os morde!” Até que um dia fomos rodeados por um grupo de curiosos que dentre várias perguntas – tais como porquê que o vosso cabelo é assim; e a cor da vossa pele? – perguntaram: “É verdade que vocês vivem em cima de árvores, com macacos?” Parece que a resposta veio do único mulato que estava no nosso grupo, o José Ribeiro, e eu apenas traduzi, porque era o que mais rápido tinha aprendido a falar a língua deles. Disse: “Sim. E a árvore do vosso embaixador fi ca mesmo ao lado da minha”… Com o passar dos anos, fui sabendo que a história sobre os negros que viviam em árvores e que tinham embaixadores brancos como vizinhos era uma piada para ridicularizar a ignorância de europeus, árabes, asiáticos e de americanos que nada sabiam sobre a vida social dos africanos! Mas a história que se segue já é real e aconteceu nos anos 90’s: Trata-se de um engenheiro angolano de petróleos, formado nos EUA, e a quem, numa discussão, um colega americano disse, sem papas na língua: “Olha, antes de querer discutir comigo, vai acarretar água na tua aldeia…, lá onde nasceste!” (O colega era branco e ele é negro). Foi racismo ou foi uma manifestação da superioridade e arrogância americana? Não sei responder! Nem sei o que hei de dizer agora, em pleno ano 2020, a propósito do suposto incidente que envolveu Moussa Marega, em Portugal… a terra onde Eusébio tanto brilhou! Quando me chamam “negro”, nada me chateia… Sou negro e honrado, e sou feliz por isso. E, isso é o que os morde!

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