A asfixia do mercado

No meu imaginário (tosco para alguns), o grogue em Cabo Verde deve ser uma bebida acessível, estive lá e, de facto, é-o. E o negócio alimenta famílias. No meu imaginário, a cachaça no Brasil é barata. E é, o que é caro são os destilados importados. Há centenas e centenas de marcas de cachaça no Brasil, com um peso considerável na economia. Se calhar, imagino eu, em Portugal também há vinhos baratos, e o são, na grande maioria, chegam é cá com preços doidos. E como diria o outro, português que tome um copo de vinho por dia está a demonstrar amor à pátria, porque alimenta milhões. Ora, vejamos como são as coisas em Angola. Até somos produtores de café, precisamos de aumentar a produção do bago e de lhe dar bom mercado, para que mais gente viva do seu cultivo, mas nos nossos restaurantes uma xícara de café pode chegar aos mil kwanzas, não vai alimentar ninguém. Não há consumo. Temos boa fruta, mas nos nossos restaurantes e supermercados a fruta custa meio salário mínimo o quilo, quando não é mais. Nunca haverá mercado aqui. Pedir um sumo espremido é atirar pedras a cruz, pecado com preço altíssimo. Até produzimos milho e mandioca, mas qualquer restaurante do asfalto cobra pelo pirão, ou funje, como se queira, um balúrdio. É proibido sair com a família para comer fora. E temos mar, se temos! Mas o preço de um prato de peixe na Ilha de Luanda paga o combustível de uma traineira numa noite de pescaria. Os nossos empresários da restauração, que até fi ngem bem algum interesse no crescimento do turismo, na verdade estão empenhados em sabotar o mercado para os produtos nacionais. E a economia. Como dizem os activistas do MPLA: “só não vê quem não quer”. Não há economia que floresça com tanta tramoia. Mas o dinheiro continua a sair do país

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