Um herói da língua

POR: José Manuel Diogo

Íamos encontrar o Mr. Johnny, às 8 da manhã no lobby do hotel-arranha- céus, um dos que existem em toda a parte na cidade de Doha, capital do Qatar, terra das arábias. À hora marcada — lá ninguém se atrasa — procurei entre os presentes cabeça a quem assentasse aquela voz que eu tinha conhecido pela internet umas semanas antes, quando acertámos os detalhes da viajem. Mas não encontrei ninguém a quem coubesse. A surpresa chegou-me, uns minutos mais tarde, quando uma voz inesperada se aproximou e disse: Olá senhor Diogo, bom dia e bem-vindo a Doha. O desconcerto aumentou quando percebi que essa voz pertencia a um sorrido rasgado e ao rosto de um homem sem turbantes e sem sotaques. Tudo nesta cidade é de Plástico fantástico, mas depressa nos habituamos. Afi nal o Mr. Johnny era mesmo o Sr. Fernandes, filho e neto de portugueses, conhecedor de Eça e de Pombal, português dos sete costados como muitos pulas aí espalhados pelo mundo. Este tinha uma história notável para contar. Ele não era um simples neto de pula, daqueles a quem, agora, a lei portuguesa confere cidadania originária. O senhor Fernandes nascido em Goa, quando a cidade indiana ainda era território português, é o neto primogénito de Custódio Fernandes, um até hoje desconhecido herói da língua portuguesa. Joni conta a história com um misto de mágoa, incredulidade, orgulho e alegria. Mágoa, porque o seu avô Custódio, morto em 1950 depois de queimar uma bandeira indiana e hastear de novo a das quinas, defendendo a língua e o cristianismo, foi esquecido pelo seu país. Incredulidade, porque apesar de Portugal nunca ter contado os feitos do seu avô, manteve o seu assassino — um tal de Mohan Ranade — preso, em Caxias-Lisboa, durante 14 anos, até que o decadente e fraco Estado Novo Português o libertou em 1969, como um lutador independentista indiano, a pedido do papa Paulo VI. Como se sabe um terrorista para uns é o libertador de outros. Orgulho, porque o Código Civil de Seabra que os seus antepassados ajudaram a implementar, que continua a vigorar em Goa 150 anos depois de ter começado a ser aplicado, foi — no que diz respeito ao direito de sucessões — adotado em toda a Índia. Mas o que deixa Joni Fernandes feliz é poder dizer que Portugal se está a converter de novo num país Global, como aconteceu há muitos anos, quando os nossos antepassados chegaram à terra de Verem, no distrito de Panda, no Estado de Goa, onde diz — “Eu nasci livre e cristão, fi lho de João Menino e Neto de Custódio Fernandes, um Herói da Língua Portuguesa”. A língua é sempre a casa da história.

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