A força da voz

Ontem vi um pequeno vídeo muito emocionante, foi capaz de me pôr num cenário de há mais de dez anos, vivi o momento com os pêlos dos braços arrepiados. Era uma corrida de berlindes, apenas isso. Apenas isso não, alguém resolveu transportar meio mundo a recordar Airton Senna, o último grande campeão brasileiro de Fórmula 1.

O vídeo tem unicamente berlindes coloridos lançados num declive, a descerem um traçado na lama em alta velocidade, como uma pista de corridas. Berlindes apenas. Mas há a voz humana, um relato de uma corrida, suponho que da última que Senna ganhou no Brasil. E esta voz humana, vinda daquele momento, a narrar uma corrida de berlindes, com Senna a ganhar, com som ambiente do autódromo, transforma o mundo.

Diz-nos outra vez o poder da voz, o poder do contacto humano, a importância da memória, das pessoas, da realidade. E também a força do desporto. Há tempos, ouvi um outro relato, cómico, sobre uma fotografi a. Uma imagem sem movimento, um autocarro que se tinha estampado num bloco de betão. E a voz sobre a imagem narrava o fi ctício acontecimento, com o motorista a buzinar, a gritar, a fazer sinais de luzes para que a pedra saísse do seu caminho.

Mas, nada! A pedra manteve-se imóvel e o choque foi inevitável. Teimosa. A culpa não foi do condutor, foi da pedra surda e talvez com atraso mental, que não tinha medo do autocarro. Mas, bem, quem fi cou danifi cado foi mesmo o autocarro e talvez dentro de si alguém tenha fi cado ferido. Era feiticeira, aquela pedra, e tinha o feitiço da corrida de berlindes que nos põe nos olhos a imagem de Airton Senna.

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