MPLA & o bajulômetro progressivo

Por: ISRAEL CAMPOS

E voltamos aos tempos uma vez pensados idos dos encontros de apoio, marchas de solidariedade e toda essa baboseira que sustenta uma bajulação institucionalizada e promovida pelo próprio MPLA, em nome de uma suposta defesa de “interesses nacionais”, com o fi m único de fazer crer aos olhos dos simples mortais que na cadeira presidencial do país temos um Deus terrestre e não um mortal humano, como convém à natureza. Este golpe que hoje emana de uma forma cada vez mais tímida, porém muito bem orquestrada, foi o mesmo que atingiu José Eduardo dos Santos, ex-Presidente da República e do MPLA, e pelo qual hoje ele, ainda a título de resultado, colhe os respectivos frutos pela conivência do seu silêncio que legitimava tais absurdos.

O Presidente João Lourenço é a ‘vítima’ da vez. Anda por aí um movimento, com as motivações que bem conhecemos, antes não tivéssemos vivido os tempos da Sua Excelência, Sr. Engenheiro Presidente da República, Arquiteto da Paz, Pai da Nação Angolana, Comandante em Chefe do Estado Maior, Enviado de Deus, Titular do Poder Executivo e dos tantos outros adjectivos, cuja menção talvez me custasse todo o espaço da publicação, que transformaram JES num ser humano de uma categoria especial. Num exercício agora permanente de demonstração da sua “fidelidade canina”, talvez a mesma que prometeram a JES e aos seus fi lhos, ao líder do partido da situação, os promotores do carnaval da bajulândia parecem estar bem decididos sobre aquilo que pretendem.

Primeiro num acto de marcha nacional de “apoio às acções do presidente do partido e Chefe de Estado, João Lourenço”, que aconteceu há uma semana, e, agora, num “Encontro social de apoio às reformas do Presidente da República João Lourenço”, programado para este Domingo, 29, pela associação Kukingila. Isto só revela, e de modo bastante claro e objectivo, que afi nal de contas temos vindo a falar para as paredes, ou seja, para estruturas surdas, com difi culdade de interpretação e entendimento e incapazes de aprenderem com os seus próprios erros.

Ao que parece, mesmo com tantas evidências na mesa de que foram este tipo de atitudes do MPLA que deixaram o país cair em desgraça, nenhuma, absolutamente nenhuma lição foi tirada pelos mesmos actores que outrora comandavam movimentos semelhantes e hoje, quase que de modo mágico, parecem estar do outro lado da corda. Parecendo que não, isto diz muito sobre os políticos que temos e sobre as suas motivações para o exercício da actividade que exercem. As pessoas não mudam do dia para a noite, elas se adaptam aos contextos e é a base dessa adaptação que deve preocupar a liderança do partido político na situação, nem que isto custe o tombar de altos nomes e sobrenomes da estrutura.

JLo tem dois caminhos: a acomodação ou a correção do erro

Na posição de João Lourenço há dois caminhos que podem ser seguidos e/ou escolhidos, o que não faz dele uma ‘vítima’ comum. Nomeadamente o do bem e do mal. O do bem seria acabar imediatamente com toda e qualquer iniciativa que vise tão e somente exaltar o seu nome como Deus disto e daquilo, em nome da preservação da sua imagem e do cumprimento da sua própria palavra no que ao combate à bajulação diz respeito.

O do mal seria cair na mesma armadilha a que JES se deixou cair, o que implicaria legitimar mais uma onda de desonestidade que impede o progresso do país. A bajulação é um problema grave, não só porque é um acto imoral e desonesto, mas, sobretudo, porque pode levar, e este risco é muito elevado, como sabemos, o bajulado/a a acreditar na veracidade das falácias vendidas pelos bajuladores, e aí reside um dos nossos maiores problemas. O MPLA, ao seu mais alto nível, chegou a naturalizar a bajulação de tal modo que ela, a bajulação, passou a ser um critério quase que obrigatório para a ascensão aos cargos públicos. E a partir daí vimos os debates televisivos se transformarem em autênticas cenas pornográfi cas protagonizadas por jovens, muitos dos quais até com alguma competência, abertamente à procura do tacho, nem que isso lhes custasse a defesa do indefensável.

Não preciso de mencionar nomes aqui, pois não? Hoje, fala-se de um novo país. O MPLA diz-se, na voz do seu presidente, disposto a combater isto e aquilo em nome do povo e da nação. Até aí estamos todos no mesmo barco. Mas surge uma questão: como é que é possível corrigir-se os erros do passado quando se continua a cometer os mesmos erros no presente? Os defensores destas marchas de apoio e afi ns dizem nas redes sociais que “apoiar o Cda. João Lourenço no combate à corrupção signifi ca amar Angola” e daí nasce um grande equívoco de quem pensa desta maneira, pelo seguinte: combater a corrupção e outros males que impedem o desenvolvimento do país não é um favor que o Presidente João Lourenço presta à nação, mas, ao contrário, um serviço público que a sua posição demanda.

Claro que o devido mérito deve ser atribuído no modo com que se compromete com essa causa, apesar de todas as interrogações que isto possa levar. Mas ele, o senhor Presidente, não está, efectivamente, a fazer nenhum favor a ninguém. Combater a corrupção é um dever patriótico. Não ser corrupto é ter valores morais e éticos, é ser íntegro e amar o país. Isto não tem rigorosamente nada a ver com o Presidente João Lourenço. Por isto, meus amigos que são camaradas, não tentem reduzir uma causa patriótica no nome de um homem, repito: de um homem, falho e mortal, como qualquer outro.

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