Óscar Ribas “ainda vive” em sua casa

Em Luanda, no bairro Cruzeiro, concretamente na rua que mereceu o nome do Comandante Eurico, destacado oficial das FAPLA, situa-se a Casa Museu Óscar Ribas, espaço onde repousam as memórias do pai da ficção literária angolana. Através de pertences seus como mobílias, obras e fotografias, os mais supersticiosos afirmariam, quem sabe, que Óscar Ribas ainda habita no local, adaptado em Casa Museu

‘Os mortos são uns invisíveis e não uns ausentes”, já dizia o artista e político francês Victor Hugo. Nas entrelinhas desta citação pode subentender-se que o facto de não vermos os mortos, não implica que eles não estejam aí. Torna-se mais intenso quando o falecido tenha sido bastante apegado aos seus pertences. Como é o caso de Óscar Ribas, que além do tão propalado lado de escritor, escondeu a figura de coleccionador de variedades de objectos. Assim, parte desta memória do escritor são encontradas na sua antiga residência, adaptada em museu, denominada “Casa Museu Óscar Ribas”, sita em Luanda, no bairro Cruzeiro, na rua Comandante Eurico, distrito das Ingombotas.

À entrada, está um placar em letras garrafais a indicar que aí é o museu, juntamente com uma imagem de Óscar Ribas. Ao penetrar-se no interior da residência, o primeiro compartimento avistado é uma sala de jantar, que alberga uma mesa de madeira de quatro lugares e um vaso de cerâmica ao centro, de cor branca, bem como um busto do escriba. Na porta da referida sala de jantar, à esquerda, está uma escada recta, que dá ao primeiro piso da instituição. Bem no início do andar, está um estreito corredor, cujas paredes estão revestidas de quadros de Óscar Ribas, sua mulher, família, amigos e colegas. No fim do corredor, há uma sala onde se pode encontrar os documentos pessoais do artista, como BI, passaporte, entre outros, conservados da deterioração por vermes, e não só, num armário médio de vidro. Ainda pode encontrar-se nesse compartimento máquinas de dactilografar normais e as especiais, para quem tem problemas de visão, como foi o caso de Óscar Ribas, que teve uma cegueira adquirida.

A casa De volta ao início do primeiro andar, há outra entrada à direita, à qual se pode aceder em meia volta a volver. Nesta sala, está localizada a maior parte dos objectos de Óscar Ribas, como objectos de crença, quadros, obras, brasões e moedas de diversos países espalhados pelo mundo. Vale ressaltar que, segundo o subdirector da Casa Museu, Sidónio Massoxi, muitas das moedas que se encontravam no local foram transferidas para o Museu da Moeda, adstrito ao Banco Nacional de Angola.

Adiante, esta sala dá acesso à varanda, com uma vista aberta à rua, onde Óscar Ribas, geralmente, recebia os seus convidados ligados ao mundo das artes. Aqui, vê-se um objecto não muito comum, uma semi-circunferência com pequenas catanas e machados. “Esse objecto representa o Deus da fertilidade e Deus da vegetação. Óscar Ribas ganhou isso em Salvador da Baía, no Brasil, em função da sua obra Uanga, onde aborda questões relacionadas ao feitiço”, explicou. Por seu turno, os dormitórios encontram-se no segundo andar que, semelhante ao primeiro, também conta com um estreito corredor com quadros. As mobílias de quarto de Óscar Ribas foram feitas por si, relembrando que o escriba tinha a carpintaria como ofício, além da literatura. Um guarda-roupa, berço familiar, e armário onde estão penicos, revólver, estatuetas, entre outros objectos também pode apreciar-se no quarto do casal Ribas.

A casa Museu Óscar Ribas ainda comporta uma biblioteca e um quintal que serve, entre outras actividades, para a realização de concertos intimistas. “Podemos olhar para Óscar Ribas em quatro perspectivas: como pessoa, como escritor, como etnólogo e como coleccionador de objectos, o que muitos não sabiam. Temos os seus objectos pessoais. Óscar Ribas acreditava nos contos africanos, acreditava que a nossa espiritualidade era um veículo para poder-se adorar a Deus”, referiu Massoxi.
Pouca afluência de pessoas Na ocasião, a directora do espaço, Maria Fernando de Almeida, reclamou sobre a pouca afluência do espaço, avançando que semanalmente podem visitar a Casa Museu Óscar Ribas cerca de 30 pessoas. Maria Fernando gostaria que pelo menos 60 pessoas pudessem visitar o espaço, ressaltando o importante papel que teve o escritor Óscar Ribas na Literatura Angolana. Por essa razão, a casa tem criado estratégias para poder atrair mais visitantes, com a realização de exposições temporárias, workshops, debates, entre outras actividades.

Quem foi Óscar Ribas? Óscar Bento Ribas nasceu a 17 de Agosto de 1909, em Luanda, e morreu a 19 de Junho de 2004. Filho de pai português, Arnaldo Gonçalves Ribas, e de mãe angolana, Maria da Conceição Bento Faria, viveu também em Novo Redondo, actual cidade do Sumbe (Cuanza-Sul), Benguela, Ndalatando (Cuanza-Norte) e Bié. Cedo nasceu-lhe o bicho da escrita criativa, ainda adolescente, conforme ele conta ao investigador francês Michel Laban: “Desde muito novo senti em mim o prurido de escrever, mas desde muito novo mesmo, talvez pelos meus 14 anos e depois, comecei a escrever os meus primeiros trabalhos literários considero-os como vôos, são uns ensaios, uns vôos literários, um livrinho o primeiro “Nuvens que passam”, uma coisinha pequena, tinha talvez 18 anos”. Após ter concluído os estudos primários, em Luanda, frequenta então o Seminário e conclui o quinto ano no Liceu Salvador Correia de Luanda.

Posteriormente a uma estadia em Portugal, onde frequentou um curso comercial, foi funcionário público na direcção dos Serviços de Fazenda e Contabilidade de Luanda. “Quando fui para o Liceu Salvador Correia tinha já concluído o segundo ano das cadeiras de francês e inglês, que eram do seminário, aí as lições eram diárias e eram duas horas por dia, fiquei com grandes conhecimentos, eu com o segundo ano do seminário de francês, sabia tanto como um aluno do sétimo ano de Liceu”. Em 1923, uma vez concluído o 5º ano, parte para a terra natal do seu progenitor, Guarda, Portugal, em companhia dos pais, onde estuda aritmética comercial, de regresso a Angola ingressa na função pública, trabalhando na Fazenda, onde acaba por largar o emprego, em virtude do pai ter sido colocado em Novo Redondo, actual Sumbe, província do Cuanza-Sul. Em 1926, o seu pai é novamente transferido para Benguela.

Óscar Ribas acompanha a família para as terras das “acácias rubras”, integrando-se e participando no meio social benguelense, vivendo e aprendendo a realidade (cultural) vivida e sentida pelas suas gentes e culturas. Pelo agravamento de uma doença congénita, retinite pigmentaria, apenas trabalhou cinco anos. Aos 13 anos foi a Portugal, em companhia do pai e lá consultou-se com um médico oftalmologista, aos 22 anos voltou a Portugal para consultar outro especialista e, em consequência disso, acabou por perder a visão aos 36 anos, passando o seu irmão a registar para o papel aquilo que ele ditava.

error: Content is protected !!