A bipolarização da nossa política

Um dos momentos mais hilariantes da nossa política doméstica terá ocorrido após a assinatura dos Acordos de Bicesse, em Portugal, quando o país entrou de empurrão para o monopartidarismo, na sequência dos acordos rubricados entre o Governo angolano do então Presidente José Eduardo dos Santos, e a UNITA, então liderada por Jonas Savimbi. Dois dos principais contendores de uma guerra fraticida, o Governo do MPLA e a UNITA, em nome dos angolanos, lideraram o processo. E o país assistiu, num ápice, ao surgimento de mais de uma centena de partidos. Sem grandes diferenças ideológicas, estes partidos políticos-cogumelos quase que se assemelhavam, ganhando a maioria deles o apelido de satélites. Para muitos, o que estava em causa, na altura, eram apenas os benefícios de tal condição, como os subsídios e até os passaportes diplomáticos. Durante um determinado período, ironizava um amigo, havia mesmo partidos cujos integrantes nem chegavam sequer para preencher os lugares disponíveis numa viatura Hiace que efectua serviço de táxi. Mas, ainda assim, muitos deles acabavam legalizados e Angola entrou na lista dos países que mais partidos possuíam no continente, até que uma nova legislação cuidou de extinguir a maioria deles. Chegou-se mesmo a mais de 100. Alguns com nomes quase semelhantes e outros com siglas ou acrónimos que mais faziam lembrar autênticas figuras medievais. Exceptuando a FNLA, ainda sob liderança de Holden Roberto, e uns novatos, a representatividade destes esteve sempre aquém. Mais do que visível estava o facto de apenas o MPLA e a UNITA criarem factos políticos e comandar a agenda nacional. Quase 30 anos depois, não há indícios de que qualquer forasteiro político venha a retirar o protagonismo por estes reclamados. A entrada em cena da CASA-CE, ainda com Abel Chikuvukuku, veio dar um novo alento ao cenário político, roubando o protagonismo inicialmente à FNLA e depois ao PRS, então terceira força política. Às portas das eleições autárquicas, sugeridas pelo Conselho da República para este ano de 2020, é claro o ofuscamento dos demais partidos, dando a impressão de que apenas os dois principais contendores estejam, na realidade, interessados neste pleito e noutros principais acontecimentos da vida nacional. A UNITA abriu as suas ‘oficinas’ Dani Costa com várias acções em Luanda e noutros pontos do país, sendo a mais marcante a que ditou a inauguração da sua sede em Luanda. E, recentemente, através de uma marcha promovida pelo seu presidente, Adalberto Costa Júnior, fez uma demonstração de força num território até então tido como praça exclusiva dos camaradas. Os camaradas, por intermédio de acções que visavam apoiar as reformas em curso promovidas pelo seu presidente, João Lourenço, encheram diversas artérias da capital do país e de outras províncias. E agora, com a rentrée política do Namibe, vieram mostrar que não andam adormecidos. O facto curioso é que três meses depois de ter começado o ano, somente estes dois partidos parecem ter ideias claras do que pretendem, desconhecendo-se o que fazem as demais formações políticas. Nem a chama das autarquias, que tem servido de argumento para se desferir ataques ao maioritário, a crise social ou a económica, serve de motivo para que alguns oposicionistas saiam do casulo para justificarem até mesmo os poucos votos conseguidos e reclamarem novos nos próximos desafios. Atolado em problemas crónicos, a FNLA não parece capaz de sair da unidade de cuidados intensivos a que foi mergulhado por força de uma crise que já leva quase três décadas. A nova liderança do PRS, encabeçada por Benedito Daniel, também está longe dos desafios a que este emblema se envolvia no passado. A CASA-CE, vista inicialmente como uma das esperanças, também não reage nem aos estímulos dos antibióticos que já são ministrados, nem mesmo com o espectro do surgimento do PRA-JA para servir Angola, cujo aparecimento deverá cooptar segmentos que viam neste emblema uma terceira opção. (In)Felizmente, apesar do tempo, MPLA e a UNITA continuam a liderar não só as preferências do eleitorado, como também o circuito mediático. Nem mesmo o surgimento de outras forças políticas, algumas até já com meio caminho andado no Tribunal Constitucional, consegue reverter esta percepção. Numa época propicia em acontecimentos, com o MPLA a se auto-flagelar devido aos constantes escândalos em que estão envolvidos alguns dos seus militantes de base e até dirigentes, na dita oposição política falta ousadia. Os seus marqueteiros não conseguem sequer aproveitar o rol de lances que lhes são colocados à disposição. É mais fácil reclamar verbas e outros benefícios durante a época pré-eleitoral. Traçar políticas e acções que marquem a vida dos angolanos ainda é uma tarefa difícil para muitos.

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