Apartamentos trocados por viaturas geram polémica no Benfica Boulevard

Um diferendo existente entre a promotora dos edifícios Benfica Boulevard, na via Expresso, e a empreiteira HL Decor e Design está na base da não entrega e ocupação de mais de 30 apartamentos pelos respectivos clientes

Com base num acordo assinado em Março de 2019, entre a administração do complexo Benfica Boulevard e a HL, as partes, segundo um memorando a que OPAÍS teve, acordaram entregar ao empreiteiro quatro apartamentos de uma das torres, mais de 118 milhões de Kwanzas, respectivamente. Dos valores acordados, apenas cinco milhões de Kwanzas foram depositados na conta da construtora, sendo que o restante não chegou, apesar de duas cartas, datadas de 9 de Março e 8 de Maio do ano passado, terem sido enviadas para o Banco de Poupança e Crédito para que se disponibilizasse mais 19.750 mil Kwanzas para o início das obras.

Condicionados financeiramente para dar seguimento às obras, os responsáveis da empreiteira HL sugeriram aos proprietários do condomínio que entregassem mais 12 apartamentos, que seriam vendidos e os valores conseguidos canalizados para o término dos apartamentos e outras estruturas envolventes. De acordo com informações em posse de OPAÍS, os referidos apartamentos foram disponibilizados, a maioria dos quais foram vendidos por valores que a promotora imobiliária considera irrisórios, trocados por viaturas e outros bens como postos de transformação de energia e até candeeiros de iluminação. A lista de viaturas recebidas pelo empreiteiro é composta por Kia Sportage, Jaguar XF, Nissan Patrol, Ford Raptor, Range Rover BB, Mercedes ML e até um Cadillac BB. Com uma totalidade de 16 apartamentos, fontes do Conselho de Administração da Benfica Boulevard garantiram que a empreiteira terá embolsado 225 milhões de Kwanzas e restavam 116.500 do montante acordado inicialmente.

Um dos responsáveis da Benfica Boulevard, que decidiu falar sob anonimato, revelou que a empreiteira HL vendeu 31 apartamentos. Segundo ele, as vendas ocorreram porque a construtora terá forçado um dos administradores a assinar os referidos contratos para que estes clientes tivessem acesso aos referidos apartamentos. “O senhor HF é que está a tentar desestabilizar o processo. Ele forçou o filho do proprietário do projecto Benfica Boulevard a entregar os apartamentos e a celebrar os referidos contratos. Mas isso não poderia ser assim, porque quem em última instância faz os contratos somos nós: Benfica Boulevard’, explicou.

Dos 31 apartamentos, a direcção da Benfica Boulevard diz que conseguiu receber as chaves de apenas 15. Pretendem refazer os referidos contratos, porque, segundo um dos principais accionistas do projecto, os apartamentos foram vendidos por valores muito abaixo da média do mercado imobiliário no país e até mesmo dos preços estipulados para cada um deles: 260 mil dólares norte-americanos. “Essas pessoas são as que estão a reclamar, mas os nossos verdadeiros clientes não. O empreiteiro recebeu o dinheiro e mais 16 apartamentos, mas não fez sequer um por cento da obra. Nem sequer a piscina. Pelo que vimos, ainda retiraram os chuveiros, interfones, mosaicos, cabos eléctricos e até aparelhos de ar condicionado. Está formalizada uma queixa”, garante a promotora imobiliária.

Rescisão de contrato

Em Novembro do ano passado, a Benfica Boulevard Empreendimentos rescindiu unilateralmente o contrato com a construtora HL, acusando-a de não ter honrado os compromissos assumidos, assim como tendo ficado com um saldo devedor de 462.275.0000 de Kwanzas. A Benfica Boulevard Empreendimentos diz ter pagado na totalidade, consoante as condições de contrato, mas diz que a empreiteira fez a obra “com desrespeito total ao projecto, utilizou materiais fora da qualidade exigida, deixou claro no contrato que tinha condições económicas para suportar a obra (mas não é verdade) e ainda cedeu apartamentos fora daqueles que estavam previstos”.

HL responde

“Não forçamos ninguém a assinar contratos”

Contactado por este jornal, um dos responsáveis da empresa HL reconheceu que alguns dos apartamentos foram trocados por automóveis, mas garante que todo o processo foi feito com consentimento da direcção da Benfica Boulevard, incluindo o filho do proprietário dos referidos imóveis. O jovem empreiteiro, que também pediu que não fosse fotografado nem se expusesse o seu nome, explicou que os referidos contratos de compra e venda foram passados num dos escritórios da Benfica Boulevard, localizado no Nova Vida. “Os clientes deslocavam-se das suas casas para o escritório da Benfica Boulevard para saber se o negócio era real ou não.

O senhor Leandro disse que dava sustentabilidade às coisas”, revelou. Ainda sobre os automóveis, o empreiteiro questiona: “se se sentiram lesados, por que receberam os meios das mãos do empreiteiro para benefício próprio?”. “Fomos dando os carros. Se não compraram os referidos carros, por que têm nas suas garagens marcas como os Mercedes, Escalade e outros que vieram dos clientes? Ninguém usa um carro que nunca viu nem o mantém sob sua posse”, acrescentou. Apesar das acusações que pendem sobre ela, a empreiteira diz que é a lesada em todo o processo em curso.

Um dos seus responsáveis não concorda com a rescisão unilateral do contrato, porque, segundo ele, foi a sua empresa que fez com que um dos principais donos dos imóveis conseguisse vir a Angola falar do projecto, dadas as reclamações de outros clientes que há muito insistem também para a entrega dos seus apartamentos. A HL garante ter realizado uma série de obras que terão dado uma outra imagem ao projecto Benfica Boulevard. “Fomos nós que reparamos a piscina, a casa das máquinas, o centro de bombagem de água, colocamos a caixa dos elevadores, pintamos todo o primeiro edifício, entre outras coisas”, explicou, acrescentando que se endividaram por causa da referida obra. “Se se sentem lesados, a HL está disponível a devolver os apartamentos. Mas eles pagam todas as facturas que fizemos, devolvem os meios e os carros também.

Se isso for feito hoje, amanhã mesmo podemos entregar os apartamentos”, garantiu um dos responsáveis da empreiteira. Diz a HL que, nas condições em que a obra se encontrava, a empresa foi a única que aceitou executála. Trabalharam com base na confiança, endividando-se igualmente e pagando alguns serviços, incluindo a empresa de segurança que assegurava o projecto imobiliário. Curiosamente, à semelhança da própria promotora Benfica Boulevard Empreendimentos, a construtora HL também reivindica uma dívida de cerca de 400 milhões de Kwanzas. “Já fui às instalações da promotora para saber as razões da paralisação das obras, a única informação que tenho recebido é a de que o administrador ‘está triste e não lhe quer receber’”. Para a HL, qualquer contacto terá que ser com a pessoa com quem assinaram o referido contrato e não o pai. Filho este que o pai diz ter sido forçado a assinar os contratos de cedência dos apartamentos, mas a construtora nega de forma veemente. “Qualquer papel de A.B para nós é inválido. A certidão comercial e os estatutos dão os poderes ao LB, o filho, com quem negociamos”, contou um dos responsáveis da construtora.

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