João Melo: “Pus um chinês a dançar kizomba para brincar com a ideia do perigo amarelo”

Lido em Angola e em todos os da lusofonia, bem como naqueles em que está traduzido, o escritor João Melo regressa aos temas que a actualidade angolana oferece. Um manancial de histórias que autores de várias gerações aproveitam e que serão uma boa fonte para os historiadores

POR: João Céu e Silva

“O Dia em Que Charles Bossangwa Chegou à América” é o título do mais recente volume de contos do escritor angolano João Melo. São sete histórias que fixam a história da realidade actual de Angola, quase todas escritas antes de ter integrado até há quatro meses o governo. Deixa essa nota bem expressa no livro, até porque considera estar agora “reformado da vida pública” e prefere antes acabar um romance que começou há quatro anos e que a política activa interrompeu. Não se reformou da leitura das notícias, mas se são de política angolana opta por cumprir os preceitos éticos e não comentar. Pergunta-se-lhe como acompanha o caso Isabel do Santos e a resposta é muito breve: “Acompanho como escritor.” Agrada-lhe mais falar de poesia, de que é “leitor contumaz”.

Este livro tem um título enganador. Faz parte do espírito destes contos e da vontade de obrigar a fazer leituras próprias dos contos?

Creio que sim, porque a literatura é uma actividade humana que envolve tanto os autores como os leitores. Acredito nisso, portanto os leitores têm a sua quota-parte de responsabilidade no que respeita às histórias. Têm de lê-las e cada um lê de acordo com o seu lugar de recepção, mas também de acordo com as suas informações e a disponibilidade para descobrir coisas novas nos textos. Faz um diálogo muito provocante com os leitores. É um desafio? Tenho feito isso desde que comecei a escrever contos, não diria que seja um artifício mas um recurso que uso com frequência. Aliás, surge sem ser pensado, mas, de tanto me questionarem porque o faço, comecei a pensar no assunto e acho que fará um pouco parte da tradição africana de contar histórias, em que o narrador tem um papel activo e não se limita a narrar os factos. Comenta-os e tenta induzir os leitores num outro sentido, ou não.

Inicialmente era apenas poeta, porque deu este salto para o conto?

Não sei dizer exactamente porquê, mas quando comecei a escrever – só publiquei mais tarde – escrevia umas histórias, no entanto a poesia foi a expressão escolhida. No fim dos anos 1980, senti necessidade de escrever ficção e, porque tinha tempo, talvez a poesia já não me bastasse para entender a realidade. Tornou-se imperioso analisar a realidade do meu ponto de vista.

A expressão “crise das utopias”, que tanto afectou os escritores angolanos nas últimas décadas, é o que melhor define essa mudança?

É possível… Sem dúvida, porque a poesia é um género que implica uma certa exaltação. Não me refiro apenas à poesia épica ou de combate, a própria poesia lírica e amorosa, que também pratico, é um género exaltante, mas a história não é só feita de períodos exaltantes e a partir de uma certa altura todos nós começámos a ter um olhar crítico sobre a realidade. Nesse momento, talvez só a ficção seria capaz de abarcar essa mutação.

Todos os autores questionam-se sobre até onde podem ir seja qual for o tema” Os seus contos registam quase pela primeira vez a história de Angola?

Exactamente, mas a grande maioria dos autores angolanos contemporâneos escrevem sobre a actualidade e a história mais ou menos recente. São, portanto, contributos para a história. Sendo olhares literários, penso que podem servir de fonte para os historiadores mais tarde escreverem sobre determinados acontecimentos.

O que falta para se escrever a história de Angola?

Há poucos anos, um historiador angolano, Carlos Alberto de Oliveira Pinto, escreveu a primeira História de Angola. É uma tentativa inicial de que gosto muito e não é uma história oficial, depois há outros autores que escreveram sobre certos períodos históricos mais antigos, no entanto ainda não existe um grande número de contemporâneos a fazê- lo. Sobretudo, sobre os acontecimentos mais recentes, o que é natural pois os historiadores precisam de uma distância, até porque muitos deles participaram na política angolana.

Isso dificulta o distanciamento?

Nos historiadores, acredito que sim. Em relação aos escritores, pode dificultar ou não, pois até pode estimular. Costumamos dizer que em Angola não faltam histórias, pode faltar é engenho para as contar bem. A realidade actual e o facto de muitos de nós sermos participantes próximos ou mais afastados dos acontecimentos dá-nos bons assuntos. E temos tentado fazer por isso.

Neste novo livro, o primeiro conto é bem político e uma dos personagens tem uma frase incisiva: “O país está mesmo desgovernado!” É o escritor que assume ou o leitor que pensa?

Não posso atrever-me a falar em nome dos leitores, mas creio que o desejam. A recepção dos meus contos demonstra essa vontade, pois em quase todos está presente a situação política de Angola, e têm sido bem recebidos. Não são bestsellers porque não temos mercado para tal. Creio que os meus livros de contos têm abordado factos, acontecimentos e situações, de natureza política. Não só, mas essa realidade está muito presente. Eu não seria capaz de escrever de uma maneira distanciada daquilo que vivo, nem concebo a literatura assim. Existem os que o conseguem, é uma outra opção.

Esteve muito envolvido na vida política até há poucos meses. Enquanto escreve mede até onde pode ir?

Todos os autores questionam-se sobre até onde podem ir seja qual for o tema. Isso acontece a todos e comigo também.

Tem o conto “Uma pequena saga ministerial”. É autobiográfico?

Essa saga não teve um final único. Os envolvidos, quando assumem determinadas responsabilidades por serem desafiados a exercer cargos institucionais, não reagem todos da mesma forma, nem sabem sair de forma igual. Por isso, o final deste conto fica em aberto. É o tipo de fim que aprecio porque a realidade não é unívoca e os seres humanos são muito complexos e contraditórios. Na vida está tudo em aberto.

Uma das frases desse conto diz “não é todos os dias que uma personagem coincide com o narrador”. Confessa o autobiográfico?

Não, é um jogo. Se a jura de um escritor vale alguma coisa, posso jurar que não é autobiográfico. Aliás , tenho uma nota no fim do livro para evitar essa interpretação e em que digo que o livro estava pronto antes de ser ministro [da Comunicação Social], à excepção do último conto. São histórias que, sendo reais ou não, é habitual ouvirem-se em Angola. Temos essa tradição de todos saberem o que se passa, por isso o trabalho dos escritores está facilitado.

“A literatura angolana sempre foi plural e aberta” Sente-se que os angolanos não estão satisfeitos com a evolução da sua história. Só poderia ser assim?

Não quero neste momento fazer comentários de natureza política, pois fiz parte do governo até há quatro meses e não seria ético. Olhando para a história recente de Angola, podemos facilmente identificar várias causas para as dificuldades que o país enfrenta. Muitos países têm dificuldades e Angola também, seja por razões internas ou externas. Nos últimos tempos, a partir de 2014, o país sofreu um choque externo brutal e isso explica muitas das dificuldades que os angolanos vivem no dia-a-dia. Não é a única causa, mas é muito forte. Eu diria que a situação que Angola enfrenta hoje é explicável, mas prefiro entender essa situação numa outra circunstância. Posso dizer que é uma realidade muito viva e dá aos escritores não só histórias mas razões para continuarmos a escrever.

Razões para os autores da sua idade e os mais jovens, finalmente, poderem escrever mais à vontade?

Não diria finalmente porque a literatura angolana sempre foi plural e aberta, há de tudo e também muita literatura que faz crítica social, política e de costumes desde há muito tempo. Não é de agora, basta ler o que os mais velhos publicaram, alguns que vieram da própria guerrilha pela independência e não têm deixado de produzir uma literatura reflexiva.

Os escritores desejavam que a história de Angola tivesse sido diferente?

Posso arriscar a dizer que sim.

Tem o conto “O perigo amarelo”. O que pretende dizer da “invasão” chinesa que se observa em Angola?

Não diria que houve uma invasão, discordo porque não existe uma carga negativa como a que essa palavra pode ter. Se formos por aí temos de falar da invasão chinesa em tantos outros países do mundo – até nos EUA. Há uma presença e uma cooperação forte e que faz falta porque os países ocidentais prometeram ajudar em 2002 e não o fizeram. O país tinha de ir buscar recursos onde existiam. Se nos perguntarmos se a cooperação é perfeita, isso é outra história e mais complexa. Do ponto de vista social, a presença chinesa pode gerar situações peculiares, até curiosas e inesperadas que para os escritores são um manancial. Peguei por uma dessas histórias, pus um chinês a dançar kizomba para brincar com a ideia de que há um perigo amarelo.

O conto “O perigo amarelo” faz lembrar a colonização portuguesa, tema quase arredado deste livro. Porquê?

Escrevo histórias contemporâneas, há uma vida para viver hoje, e isso é história, assumida com os seus erros e virtudes, desencontros e alguns poucos encontros, e tudo isso faz parte da própria realidade angolana. Somos o que somos, não só mas também por causa dessa presença histórica de Portugal. A vida actual é tão tensa e rica ao mesmo tempo que não temos tempo para olhar para o passado, Angola é um país jovem e de jovens e a tendência é olhar para a frente. Aliás, se assim não fosse, não estaríamos a falar português.

Usa e abusa do humor e da ironia. Não poderia ser diferente?

Acho que não, os angolanos são bem-humorados de um modo geral e na minha literatura tenho tentado não desmerecer essa virtude. O humor é bom porque nos ajuda a relativizar as coisas e é um instrumento crítico também.

O amor e as mulheres estão muito presentes nestes contos. Era inevitável?

As relações entre homens e mulheres são uma constante da vida, como diria um poeta português, e é natural que eu as retrate.

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