Universitários tentam salvar fumbua da extinção

O director nacional da Biodiversidade, Nascimento António, disse que um grupo de estudantes da Universidade Kimpa Vita está a estudar a possibilidade de fazer germinar a semente da planta com a qual é feita a fumbua, já que esta encontra-se na lista vermelha das espécies da flora angolana em via de extinção. A escassez do produto está a deixá-lo mais caro, já que a maior parte tem vindo da vizinha República Democrática do Congo

A lista vermelha de espécies de Angola, publicada em 2018, apresenta, na vertente da flora, a fumbua, mangais pretos, pau de cabinda, palmeira real, welwitcha, Makundi-kumbi, pau-rosa, Kitiba, tacula, ebano, mafumeira kitsombe e salale, como espécies vulneráveis. Em florestas como as que se encontram nas províncias do Cuanza-Norte, Uíge, Bengo, Zaire e Cabinda é possível encontrar esta planta, em espécie de trepadeira, mas tem vindo a desaparecer. Intensificou-se a colheita deste produto, segundo o director nacional da Biodiversidade, Nascimento António, o que tem feito com que haja incapacidade de a planta se regenerar naturalmente.

Para além da intensidade da colheita, a preocupação está no facto de não serem apenas arrancadas as folhas, mas também o caule (fio que normalmente os comerciantes usam para amarrar as folhas de fumbua e comercializar em montes). Essas duas acções colocam em risco a planta que tem registado dificuldades de voltar a crescer. “A velocidade do consumo é tanta que estamos a ver desaparecer esta planta das nossas florestas. Se perguntar aos que fazem a colheita, certamente dir-lhe- ão que no sítio que antes tiravam o produto está a desaparecer e têm de percorrer, agora, longas distâncias para conseguir”, disse. Dada a esta situação, o director denunciou que muito do produto (fumbua) que aparece no mercado angolano está a vir do país vizinho, Congo Democrático. Este é também um dos sinais do seu desaparecimento da flora angolana, já que todos os dias vê-se esta transação na fronteira do Luvo, por exemplo.

“Há instituições que estão a desenvolver investigações no sentido de domesticar a planta e passar a cultivá-la. É um pouquinho difícil, pois a sua semente parece (ainda não se provou esta teoria) que tem de passar ainda no estômago de um animal, para germinar. Determinados animais, ao comerem certos frutos, difíceis de serem digeridos, acabam expulsando-os no excremento – este que servirá de adubo e dará lugar à germinação da planta”, explicou. Não se tem ainda a capacidade técnica para que o estudo seja feito, precisa-se estudar também a que temperatura a semente deve ficar para germinar e qual o animal que poderá ajudar neste processo, entre outros aspectos. A Universidade Kimpa Vita fez um estudo mas não conseguiu ainda fazer germinar a semente, pelo que se desconfia que tenha de passar pelo estômago de um (dado) animal, como fez saber o nosso entrevistado.

Explorar com cuidado os recursos florestais

Essa problemática da escassez da fumbua levanta mais uma vez a questão da gestão das florestas, como fez saber o director, que deve ser bem vista. Quando se vai explorar a floresta, ao invés de se arrancar a planta, deve-se dar a hipótese de a mesma se recuperar, para além de se ter em conta o licenciamento de quem explora. “O que temos feito é sensibilizar a população a ter em atenção este aspecto e pedir que se dê espaço de exploração, de forma a que não tenha de fazer todos os dias a colheita, por exemplo. Estamos também a colaborar com os meios de comunicação social no sentido de se passar massivamente esta mensagem”, reforçou. Nascimento António, director nacional da Biodiversidade, disse ainda que o sector do ambiente está a ver com muita preocupação a questão relacionada com a possível extinção da planta da fumbua. O cozinhado de fumbua é um prato típico principalmente da região Norte, muito usado em actividades festivas, bem como nas refeições diárias dos cidadãos desta região. Por ser uma planta espontânea, que não é cultivada, e cresce nas florestas tropicais húmidas, corre o risco de extinção dado o facto de estar a elevar-se o seu consumo.

Distância e estado da estrada estragam o produto

Falar de fumbua em Luanda, leva-nos a bairros como o Palanca, Kikolo e Mabor, só para citar alguns onde há maior concentração de cidadãos de cultura Bakongo, cujo cardápio de consumo tradicionalmente “exige” este prato

A nossa equipa de reportagem esteve no Palanca, onde conversamos com Mamá Pemba, de 45 anos, que lamentou o facto de o longo percurso feito para conseguir o produto em questão estar a encarecer o mesmo. Para além do estado das estradas, Mamá Pemba confirmounos que boa parte da fumbua que compra vem do Congo e, às vezes, na província de Cabinda. Muitas vezes a compra da fumbua para reposição do seu stock é feita às Segundas-feiras, mas ultimamente faz mais às Quartas-feiras e, dada a escassez do produto, não consegue fazê-la em grandes quantidades.

O saco de 50 quilos de fumbua, que no momento de bonança custava 15 a 20 mil Kz, em época de escassez custa 30 mil Kz. “O produto também está a chegar já estragado, dada a distância. As folhas de fumbua, se demorarem mais de quatro dias amontoadas ou nos sacos acabam por apodrecer ou secar. Pelas razões que já referi, temos tido este problema”, disse. O monte de fumbua que às vezes é comprado a 800 Kz é vendido a 1000 Kz. A venda ultimamente não tem sido muito boa e a salvação tem sido a comercialização de produtos acompanhantes da fumbua, como a muamba e o bagre, por exemplo.

A sua colega de bancada, Maria Luz, de 55 anos, que vende fumbua no bairro do Palanca há 20 anos, disse que durante este período o preço da fumbua tem oscilado bastante, mas ultimamente está mais caro. Ela compra o saco de fumbua a 40 mil, porque ultimamente a fumbua que chega a Luanda é pouca para o consumo que se pretende. Com o andar da carruagem, todos os dias são os clientes que reclamam do aumento do preço do monte de fumbua, que antes custava 500 ou 600 Kz e passou a custar 800 Kz. O que salva o negócio, para além dos produtos acompanhantes citados pela sua colega, é o factor cultural do consumo da fumbua, segundo a entrevistada. “Nos óbitos, nas festas de casamento e baptismo, o prato de fumbua não deve faltar. Todo o mundo quer, todo mundo gosta”, disse.

Escassez reflectida no prato

Enquanto o produto estiver caro no mercado, nos restaurantes e barracas o prato de fumbua, embora permaneça no mesmo preço, tem a quantidade diminuída. É assim que faz Isabel Bassukiça na sua barraca. Se antes colocava três colheres de fumbua, agora são apenas duas. A fumbua é o molho do dia-a-dia do seu pequeno estabelecimento e no processo de confeição o que pesa mais no bolso, evidentemente, é a compra do ingrediente principal: as folhas de fumbua. Nem o bagre fumado, a muamba, óleo de palma ou o vegetal têm influenciado no preço do prato. A única preocupação está na dificuldade que ultimamente se regista para se conseguir a fumbua a preço baixo. “Não alterei o preço do prato, continua a ser 700 Kz, neste caso a fumbua com funge ou kikuanga e peixe ou frango. Diminuí apenas o número de colheres servidas”, disse. Os clientes reclamam o facto de verem o produto a ser pouco servido, mas Isabel procura contornar a situação e dá as devidas explicações.

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