Economista alerta para “juros e custos de produção” da cesta básica

Está em andamento a partir de hoje, Quarta- feira, 4 de Março de 2020, um programa governamental criado para incentivar e intensificar a produção de alimentos da cesta básica. O Ministério da Economia e Planeamento e o BDA viajam pelo país, para visitas de constatação e, o economista Janísio Salomão considera primordial que tenham em conta a totalidade dos factores que actualmente impedem o crescimento da agricultura nacional.

Tendo sido gastos incontáveis milhões de dólares, durante décadas, na importação de bens alimentares primários, num país com terras aráveis e outrora exportador destacado no ranking mundial, o Executivo disse tencionar promover a produção nacional. Parte integrante do “Programa de Apoio à Produção Nacional, Diversificação das Exportações e Substituição das Importações”, (PRODESI), traduzido em Lei, consta um projecto desenhado para estimular a produção local de artigos da cesta básica. Ao encargo do Ministério da Economia e Planeamento, com colaboração do Banco de Desenvolvimento de Angola e auxílio e orientação de consultores especialistas, serão mensuradas as reais capacidades produtivas dos agricultores a seleccionar para financiamento.

As províncias indicadas, alvo deste programa de crescimento agrícola, são: Bengo, Benguela, Bié, Cuanza-Norte, Cunene, Huíla, Huambo, Luanda, Lunda- Norte, Lunda-Sul, Malanje, Moxico, Uíge e Zaire. Durando as visitas de hoje a Segunda-feira. Nas capitais de cada localidade, a comissão de serviço e consultores irão averiguar o potencial, o real, os financiamentos em decurso no P.A.C., auscultar os intervenientes locais e indicar, no máximo, 15 cooperativas a patrocinar. Com essas medidas, o Ministério da Economia e Planeamento espera ver “priorizadas as matérias- primas e bens produzidos em Angola, uma forma de apoiar o aumento do emprego”, lê-se no comunicado de imprensa enviado ontem.

Haverá com isso uma baixa de preços?

Espera-se que o aumento da produção nacional dos alimentos da cesta básica implique em breve a diminuição de preços na aquisição dos artigos, quer no mercado formal, como informal. Porém, Janísio Salomão, economista, explicou que, à partida, não há essa garantia, pois que há imensos factores inerentes à produção e, se estes forem dispendiosos, isso se reflectirá obrigatoriamente no aumento do preço final do produto. Na actividade agrícola nacional, nos custos de operação estão incluídos geradores, aquisição e manutenção, combustível, electro- bombas, manutenção das viaturas que transportam a mercadoria, regularmente desgastadas pelo mau estado das estradas, para além da mão-de-obra. E, quanto à absorção dos produtos no mercado, a realidade em Benguela revela constrangimentos nos acordos entre produtores e grandes compradores, superfícies comerciais pois, o prazo para pagamento da mercadoria fornecida pode superar os 60 dias.

Porque alguns dos grandes estabelecimentos comerciais “pagam muito tarde”, Janísio Salomão estima que essa dificuldade não seja restrita a Benguela e, a estender-se pelo país todo, é uma desvantagem que pode desencorajar os produtores. Em Benguela, fruto disso, muitos são os agricultores que “preferem vender para o mercado informal”, informou, para terem os lucros imediatamente. Até porque, vários operadores têm dívidas e juros a acumular nos bancos. Por conseguinte, havendo intervenção do B.D.A., “se o capital for oferecido a um custo relativamente baixo, isso também ajuda a fazer com que, efectivamente, essa produção seja levada ao mercado a um preço mais baixo.” Assim, porque os juros dos empréstimos contraídos são uma condição para arranque da produção e constituem uma preocupação para os agricultores, tratando-se de um programa apoiado pelo Executivo, devem ser reduzidos, defende o economista.

Os “preços competitivos” devem ser um dos objectivos desse projecto, pois o custo de vida e a inflação aumentam, mas o salário mínimo não, logo, os preços dos produtos nacionais deveriam atrair todos os bolsos. Contudo, Janísio Salomão adverte para a necessidade de se incrementar a qualidade na produção nacional, para que se atinjam patamares de igualdade competitiva, relativamente aos alimentos importados. “Ou seja, existirem tantos incentivos e não se investir em mecanismos para aferir a qualidade, calibragem dos produtos” não é aconselhável, porque os artigos importados têm a boa aparência em seu favor, relembrou. De outro modo, o economista Janísio acha, apesar de alguma recente evolução positiva, que a “consciencialização, divulgação para o consumo do que é nacional, marca do que é feito em Angola”, também deve ser revigorada.

Problemas de base que cabem ao Governo resolver

Segundo o economista, “se a questão da energia eléctrica e vias onde circula essa mercadoria” persistirem, cabendo a acção ao Governo, “se não se melhorar isso”, o negócio dos agricultores continuará a enfrentar consideráveis perdas. “Os produtores terão problemas em escoar essa mercadoria”, alerta o especialista. E, havendo contratos entre cooperativas e supermercados ou outros revendedores substanciais, é fundamental o cumprimento nos prazos de entrega. Como fazer, com más estradas? Noutro campo, Janísio vê a titularidade das terras como, “um bom passo”, factor motivacional para os pequenos agricultores, associados das cooperativas. E, espera que se lhe juntem outros passos positivos, para eliminar as barreiras supracitadas.

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