Heroificação e mitificação

POR: João Ngola Trindade

As proezas protagonizadas por determinada personagem histórica colocam-na numa posição inigualável entre os mortais que, conscientemente, ou insconscientemente, evocam constantemente os seus feitos contribuindo deste modo para a perpetuação do seu mome. Através das canções e de outras expressões artísticas constrói-se uma memória em torno de uma figura que, apesar da sua partida para o Além, marca presença no imaginário popular tornando-se num modelo de conduta a ser seguido ao longo do tempo. A heroificação e a mitificação encerram todo este processo (de produção da memória) marcado pela celebração das virtudes da “personalidade de excepção”. Este conceito encerra a narrativa de personalidades invulgares, como Davi, que se notabilizaram pelos feitos que até hoje inspiram milhares de cristãos em todo o mundo. Não hajam dúvidas de que a notoriedade que o filho de Jessé veio a ter é um património imaterial que começou a ser formado muito antes de ter sido entronizado, pois, foi ainda na condição de pastor de ovelhas que ele enfrentou e matou o urso e o leão. É oportuno fazer uma pausa, nesta meditação, para deixar claro que a palavra “pastor” adquire vários significados, dentre os quais importa assinalar aqui o período da vida de um jovem que, apesar de ser trabalhador, era até então desconhecido na sociedade judaica e desprezado pelos seus irmãos. A sua saída do anonomato registou-se depois do confronto que o opôs ao temível Golias e do qual o então pastor de ovelhas saiu vencedor. A narrativa deste acontecimento memorável coloca novamente em destaque a coragem de Davi – uma das qualidades com a qual o jovem viria a notabilizar-se no teatro das operações militares como um general destemido e temido pelos seus adversários que, inúmeras vezes, foram derrotados por si. A celebridade do rei de Israel deve-se igualmente ao seu talento artístico: além de harpista e compositor, Davi foi um poeta de excelência. Da sua pena surgiram inúmeros salmos memorizados ao longo da História por muitos cristãos como hinos, orações e cânticos que, em alguns casos, expressam a gratidão a Deus pelas conquistas alcançadas; outras vezes, espelham a confiança em Deus diante de problemas aparentemente insolúveis. Estando já velho, adoentado e nos últimos momentos da sua vida, o soberano recomendeu a Salomão, seu sucessor, que andasse no caminho do Senhor, que cumprisse os Seus mandamentos, que fosse fiel a Deus recordando deste modo a sua trajectória de vida marcada constantemente pela adoração a Deus e coroada de incontáveis vitórias no campo militar. Em síntese, o harpista antecede o general e o poeta imortaliza as façanhas do guerreiro, assegurando deste modo a perenidade do capital histórico construído por si.

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