Karma

Uma semana depois de duas grandes manifestações políticas no país, protagonizadas pelos dois principais partidos, inicialmente pelo MPLA e posteriormente pela UNITA, a agitação política já terá atingido o pico. Tudo começou com a rentrées, uma acção normal que as formações políticas nas democracias fazem para marcar a entrada num determinado ano. Decorridos dois meses, isto é, Janeiro e Fevereiro, estamos a viver um momento quase pré-eleitoral declarado, supostamente rumo às eleições autárquicas ou até mesmo às gerais de 2022, independentemente dos dois anos que ainda nos faltam. Com o restante da Oposição praticamente adormecida, é com a UNITA que os responsáveis dos camaradas vão trocando farpas. Provavelmente endiabrada pelas enchentes nos seus últimos actos, como o de Luanda e agora no Huambo, onde puxou uma moldura humana significativa para as ruas, que os militantes do MPLA dizem ter sido conseguidos fruto de reforços provedores das províncias vizinhas também, a tónica dominante dos discursos dos responsáveis do Galo Negro tem sido, quase sempre, dar ênfase aos níveis desregulados de corrupção que o país atingiu e as suas consequências. Para os dirigentes da UNITA, a corrupção tornou-se a imagem de marca dos seus adversários. Aliás, foi o que o próprio presidente deste partido, em viagem de trabalho a Cabo Verde, salientou, quando disse que “se o combate à corrupção for feito em toda a dimensão não ficará um único dirigente do MPLA para contar a história”. Desde o tempo do Presidente José Eduardo dos Santos que se elencou a corrupção como sendo o segundo mal no país a ser combatido depois da guerra. Infelizmente, apesar das intenções, só no actual mandato de João Lourenco se está a fazer jus ao que inicialmente havia sido preconizado. Mas, ironicamente, mesmo que a sociedade encare com bons olhos esta iniciativa de combate à corrupção, que tem estado circunscrito a figuras ligadas ao próprio partido da situação, o seu bom ou mau resultado servirá de arma de arremesso contra o próprio MPPLA. Até às próximas eleições, sejam elas autárquicas ou gerais, as munições a serem usadas pela Oposição estarão seguramente nos nomes expostos e na sua ligação ao partido. Seja por intermédio de LuandaLeaks ou outros processos que serão desvendados. O facto de João Lourenço, que disse conhecer a máquina, se ter lançado neste combate é uma das principais novidades do nosso ambiente político desde que chegou à presidência. Mas isso por si só não basta para que os angolanos tenham noção de que se vá perdoar o MPLA pelos males que estas práticas causaram ao país e, consequentemente, aos seus habitantes. Daí que das duas umas: ou as pessoas começam a sentir nas suas vidas os efeitos deste combate, o que para o cidadão comum significa acesso aos bens essências para a sua vida, ou então se irá penalizar ainda mais os camaradas, que, verdade seja dita, a nível dos cabos eleitorais encontram-se desfalcados, incluindo para se convencer uma grande maioria com argumentos. Quando os seus dirigentes, como foi o caso do próprio secretário- geral, Paulo Pombolo, insistem em ameaças como aquelas de “que não nos provoquem”, acreditamos que os efeitos acabam por ser contrários. Sabe-se, claramente, da dimensão do conflito militar que o país viveu, assim como do que as partes terão feito para que o país chegasse ao estado calamitoso em que se encontra. As culpas serão, sempre, imputadas às duas partes, embora se acredite em muitos círculos que sem Jonas Savimbi fora do jogo não se chegaria facilmente a um acordo de paz. Mas o que muitos camaradas não se podem esquecer é que grande parte do saque do erário terá tido lugar já num ambiente de paz, principalmente depois de se ter adoptado a famigerada acumulação primitiva de capital. Daí que recorrer aos fantasmas da guerra acaba por ser mais prejudicial e expor algumas fragilidades.

leave a reply