Livrarias angolanas “sucumbem” à crise

Devido à crise económica e financeira no país, dezenas de livrarias estão com menos receitas líquidas para importar material e manter vivo um negócio que já foi rentável

As livrarias nacionais atravessam, desde 2014, um dos seus piores momentos em termos comerciais, com perdas sucessivas de clientes, redução de importações e baixas nas vendas. Há cerca de seis anos, as casas de distribuição desses produtos culturais enfrentam uma realidade financeira sem precedentes, ficando muitas delas à beira da falência. Devido à crise económica e financeira no país, dezenas de livrarias estão com menos receitas líquidas para importar material e manter vivo um negócio que já foi rentável. Nos dias de hoje, quem procura por livros, nesses espaços, encontra as estantes quase vazias e as “casas” praticamente às moscas, particularmente na capital do país (Luanda). O cenário em muitos dos antigos locais predilectos para a compra de obras didácticas, científicas, literárias (…) é “desolador”, com os livros disponíveis praticamente “tomados” pelo pó.

O problema agudiza-se com a disponibilização de conteúdos até então exclusivos das livrarias nas plataformas digitais (Internet), deixando os livreiros com futuro incerto. Vender livros e gerar lucros é, actualmente, algo que poucos conseguem. Diante desta realidade, várias “casas” já aventam a possibilidade de encerrar as portas. “Devido à crise, a tendência é o encerramento de muitas livrarias, pela incapacidade de pagamento do arrendamento dos espaços, impostos e dos funcionários”, adverte Bernardino António, trabalhador da editora e livraria Chá de Caxinde. Até as livrarias mais populares, como a Mestria, a Chá de Caxinde e a Académica sentem “na pele” as dificuldades de importar, aumentar clientes e gerar lucros. “Infelizmente, nesta época, o retorno financeiro não tem correspondido. Temos feito muito sacrifício para manter as livrarias”, lamenta Bernardino António.

Negócio a meio-gás

Em Luanda, por exemplo, onde existia uma considerável rede de livrarias há 10 ou 15 anos, o cenário actual é assustador, pois muitas já “sucumbiram”. É o caso das livrarias Lello e Mensagem, até então pontos de convergência de pais, encarregados de educação e estudantes ávidos de comprar material didáctico. Cenário pior registam as demais províncias, onde as livrarias, praticamente deixaram de fazer parte do quotidiano dos cidadãos, há mais de duas décadas. Face às dificuldades, as mais tradicionais buscam fusões e reduzem operações para continuar a tocar um negócio claramente em queda, que querem ver reacendido. Conforme o Ministério do Comércio, não existem, actualmente, números concretos para precisar quantas livrarias estão em efectiva actividade no país, pelo facto de muitas estarem registadas apenas como empresas, sem especificar a sua actividade.

Apesar de não quantificarem as que encerraram desde 2014, as autoridades confirmam uma tendência que todo o livreiro no país gostaria de ver evitada: a crise impactou no negócio. As dificuldades decorrentes da falta de divisas para importar livros e dos altos preços dos produtos que afugentam os clientes são sentidas em todo o país. No município do Sumbe, província do Cuanza-Sul, por exemplo, existem 18 livrarias em vários bairros e ruas, que adquirem livros nos mercados paralelos e nalgumas editoras locais e de Benguela. Em era de crise, as dificuldades consistem na transportação de livros, na falta de instalações condignas para a venda, de segurança e de editoras para a compra. Nessa conjuntura adversa, os principais clientes são os estudantes e os professores. Na província do Moxico, com sete livrarias em actividade, o cenário é idêntico. A primeira casa que havia no Luena fechou em 2012. As poucas que ainda resistem têm dificuldades de diversificar o lote de produtos.

Grito de socorro

Os proprietários de livrarias no Moxico falam em dificuldades para adquirir livros a partir de Luanda, Benguela e Huambo, além da China e do Brasil. O elevado valor cobrado pelos proprietários de viaturas para a transportação, devido ao mau estado das vias, também faz encarecer os preços. Esse mar de problemas é sentido pela livraria Sapiência, aberta em 2003, uma das pioneiras da cidade do Luena. Fornece livros aos estudantes e profissionais. Segundo os responsáveis, “nos últimos dias começaram a enfrentar grandes dificuldades ligadas aos elevados preços estabelecidos pelos fornecedores”. De acordo com o gerente da livraria MCM – Rogério, Alcibiase Mucuma, a distância entre o Moxico e os principais centros das cidades é um empecilho para a sustentabilidade das livrarias locais. “Um produto adquirido em Luanda ou Benguela chega ao Moxico com preço completamente elevado em relação ao de compra, o que aumenta o custo a ser aplicado aos clientes”, explica. Apesar de agora começarem por estabelecer parcerias com pessoal do Huambo, a maioria dos fornecedores do Moxico está em Luanda. Na província do Zaire, o quadro não difere. Há apenas duas livrarias, uma no Soyo e outra em M’banza Kongo, cujos materiais são, na maioria, adquiridos em Luanda. Já no Cunene, funcionam três em Ondjiva, que adquirem livros nas províncias da Huíla e Luanda. Os mais procurados são os livros escolares.

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