É cedo para revisão orçamental, mas a solução é apostar em sectores não petrolíferos, defendem economistas

O preço do barril de petróleo no mercado mundial está em constante queda. Aliás, as previsões da reunião da OPEP da última semana apontavam para isso. Os economistas são unanimes em dizer que é cedo para revisão orçamental, mas a solução é apostar na agricultura e demais sectores

Texto de Miguel Kitari & Patrícia de Oliveira

As economias dependentes do petróleo, como é o caso de Angola, estão a ressentir-se da redução do preço do barril do “ouro negro” no mercado mundial, que até ontem foi negociado na casa dos 36 dólares, por barril. E Angola é um destes países cuja economia é petrodependente, adivinhando-se enormes dificuldades para o Executivo central na materialização de projectos macroeconómicos previstos para este ano. Na sua abordagem sobre o assunto, o fiscalista Francisco Silvestre refere que “podemos já começar a repensar noutra forma de diversificação económica e de financiar o orçamento, mas ainda é cedo para revisão do Orçamento Geral do Estado”, ressalvando que “essa queda do preço do barril do petróleo vai comprometer a retoma da nossa economia, muito frágil”, afirma, sublinhando que a China – um dos “gingantes” económicos mundiais, está a ser afectada devido à redução do preço do petróleo.

Por isso, Francisco Silvestre aponta o sector não petrolífero como solução, fundamentalmente o sector agrícola, para o alavancar a
economia nacional, referindo que o principal produto que sustenta o OGE é bastante volátil. Segundo o fiscalista, devido ao Coronavírus, que está a retrair as trocas comerciais entre os países, vaticina que o país terá dificuldades de pagar a sua dívida pública inscrita na carteira de pagamentos deste ano. “A nossa economia depende das economias externas, uma vez que não produzimos grande parte dos bens que consumimos e o principal produto de exportação está em risco de não dar os resultados esperados para 2020”, apontou.

A diversificação económica não se faz somente com programas. Mas sim com mudança de mentalidade Por sua vez, o economista Aguinaldo Gando também defende que com a queda do preço do barril do petróleo Angola será forçada a rever o OGE, despesas e receitas que foram feitas com base no no preço do petroleo. “Quer queiramos, quer não,
Angola tem de fazer num curto espaço de tempo a revisão do Orçamento Geral do Estado. Por outro lado, isto passa por se ter feito um orçamento optimista, porque normalmente é feito sempre acima dos 50 ou 55 dólares. Nesta altura, temos de rever as despesas e gastar em função do que temos e fazer um reajuste”, disse.

Aguinaldo Gando acredita haver necessidade de se apostar em sectores não petrolíferos para diversificar a economia. Para o economista, o problema de Angola são as políticas implementadas. Ressaltando que a diversificação económica não se faz somente com programas. Mas sim com mudança de mentalidade, aposta e estratégias. “Não se diversifica a economia num país que não está interligado, temos muitas estradas em mau estado, com uma taxa baixa de electrificação. Esses factores asfixiam a classe empresarial, que se depara com custos de produção elevados”, disse.

O economista Mário Ndala referiu que o petróleo em Angola está na primeira linha dos produtos exportados, ou seja, tem um peso na ordem dos 90 %, o que torna a economia angolana muito dependente desta comodity. “Qualquer alteração que ocorraneste sector, como é o caso da queda do preço do barril de petróleo no mercado internacional, necessariamente implica a redução nas receitas e mexe com o OGE”, explica. Mário Ndala admite que a redução das receitas do Estado vai implicar a perda da capacidade de realizar um conjunto de projectos. o que acabará por reduzir igualmente a capacidade de respostas da economia. No seu entender, as soluções para minimizar o problema passam por fazer-se investimentos na economia real, nomeadamente na agricultura e na indústria.

“Além da aposta no fomento da agricultura e indústria, é importante ressaltar que o capital humano é fundamental”. “Não basta ter recursos como solos férteis, água e terras se as pessoas que podem servir de factor determinante para elevar a produção e diversificar a economia não tiverem conhecimentos suficientes. Não haverá mudanças. É necessário investimento no capital humano”, ressalta. Tudo acontece quando o Estado angolano previu receitas e despesas na ordem de 15 biliões de kwanzas, tendo como referência o preço do barril de petróleo em 55 dólares. Até ontem, 09, o preço da matéria-prima estava mais de 30% abaixo do previsto no OGE.

OPEP previu queda Reunidos na última semana, em Viena – Áustria, os membros dos Países Produtores e Exportadores de Petróleo (OPEP) admitiram que “com a propagação da epidemia de Coronavírus criou-se um desequilíbrio no mercado entre a oferta e a procura do crude, factor da actual baixa significativa do seu preço e com perspectiva de se prolongar durante todo o ano de 2020”, admitem os participantes na reunião. Reunidos em Viena – Áustria, os membros da OPEP analisaram o grau de implantação dos cortes decididos na 117.ª reunião realizada em Dezembro passado, cuja implementação teve início em Janeiro deste ano.

error: Content is protected !!