Juramento de hipócritas

POR: Daniel Costa

Desde Dezembro de 2019 que o Coronavírus entrou no léxico de políticos, inicialmente, e da população em geral em todo o mundo. De um simples vírus, como víamos na sua fase inicial, com foco na localidade de Wuhan, na China, ele tornou- se rapidamente numa ameaça até para os mais poderosos países do mundo. Dos Estados Unidos da América, a maior potência do mundo, aos seus principais aliados no Conselho de Segurança das Nações Unidas, como a França, e Inglaterra, o pequeno suspiro, que se deu inicialmente em território chinês, deu lugar a uma série de preocupações, com grandes incidências políticas e económicas, com o barril do petróleo, por exemplo, a cair para mínimos de há três décadas.

Os EUA já decretaram ‘Estado de Emergência’ e um investimento de 50 mil milhões de dólares para tentar conter a propagacao do vírus e reduzir as mortes. Na Europa, as fronteiras estão quase todas fechadas, não obstante ao facto de serem economias mais avançadas, que apostaram sem pestanejar, durante séculos ou décadas, para que possuíssem os melhores serviços de saúde. A África não tem sido poupada. Embora com poucos casos positivos, o Coronavírus já se vai alastrando em toda a sua extensão, sem números alarmantes, isto é, do corno de África ao Cabo e do Atlântico ao Indico. Devido às suas especificidades, o Coronavírus transformou-se numa ameaça global, com uns países a conseguirem conter o número de mortes e outros apenas a rezarem para este ‘Diabo’, como alguns já apelidarem, não chegue aos seus solos.

Mas, como já dizem alguns cidadãos, o Coronavírus é mais democrático do que poderiam esperar muitos daqueles líderes que durante anos se recusaram a dar prioridades a sectores como a saúde e educação, nos seus territórios, que hoje se veem desprovidos dos serviços mínimos. Quando há muito anos determinadores sectores da sociedade civil questionavam sobre as verbas atribuídas dentro do Orçamento Geral de Estado para estes dois sectores vitais, o esforço da guerra foi uma das desculpas mais escutadas. Findo o conflito, ainda assim, notou-se uma certa relutância em se dar vazão a este propósito, quando havia dinheiro de sobra e até mesmo alguns dirigentes se davam ao luxo de desviar as verbas completadas destinadas à construção de centros de saúde e hospitais nas zonas mais recônditas deste país.

Cujos moradores, se se virem assolados pela pandemia, não terão como enfrentá- lo e muito menos evitar a sua propagação devido a determinados hábitos e costumes. A história, felizmente, sempre registou que muitos líderes africanos não tiveram como prioridade a construção de instituições de ponta nos seus países, nem mesmo centros de diagnóstico, porque a solução dos seus problemas sempre estiveram no exterior. Hoje, os cidadãos que dirigiram estão a ter acesso a determinados serviços e até pequenas cirurgias graças à solidariedade internacional. O Coronavírus vem também destapar a fragilidade de muitos dos sistemas de saúde no continente. E o de Angola não é excepção, sobretudo nas áreas fronteiriças, onde o temor dos populares agudiza- se por falta de informação e, sobretudo, por inexistência de postos de hospitais que consigam realizar diagnósticos para além da gota espessa ou controlo da hemoglobina. No meio deste turbilhão estarão os médicos, enfermeiros e o restante pessoal da Saúde.

Autênticos heróis que, mesmo sem as condições necessárias ou as regalias por que se batem energicamente há vários anos, farão prevalecer o sentido de missão que um dia fi zeram quando procediam ao juramento de Hipocrates. É neles que a população deposita esperanças, porque prometeram guardar ‘respeito absoluto pela vida humana desde o seu início, mesmo que esteja sob ameaça’. Na China vimos muitos médicos a perderem a vida depois de terem adquirido o vírus. Esperamos que outros não tenham o mesmo destino, sobretudo nos países africanos, onde as condições de trabalho e a existência de fármacos continuam a ser uma lástima, por força da ambição desmedida de governantes quem um dia também juraram prestar mais atenção aos governados. Por azar do destino, o único consolo, para muitos, é que aqueles que um dia juraram hipocritamente criar condições para todos, mas não o fizeram, poderão usar dos mesmos meios caso o Coronavírus nos bata à porta. As portas dos países de eleição, onde mergulhavam até para se desfazer de uma espinha de peixe na garganta, também lhes estão vetadas.

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